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Carmen Miranda – A “Explosão Brasileira”: Do Mito e da Mulher

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A grande maioria das pessoas não iria associar Maria do Carmo Miranda da Cunha, nascida a 9 de Fevereiro de 1909, em Marco de Canavezes, no Norte de Portugal, com a mulher mítica, grande intérprete da música brasileira e do cinema de Hollywood, a Carmen Miranda.

Carmen Miranda

Carmen Miranda

Maria do Carmo, conhecida internacionalmente como Carmen Miranda, que foi considerada por muitos um ícone brasileiro, a “explosão brasileira”, retratando fielmente um Brasil popular e tropical, da sua época, espalhando energia quase “eléctrica” na sua forma de cantar e dançar em palco, carregando uma cesta de frutas à cabeça e trajando vestes de baiana, era afinal portuguesa!

Mas Carmen Miranda, nascia e morria brasileira de coração, tendo ido para o Brasil em tenra idade e tendo sido, provavelmente, uma das mais significativas representações do Brasil no Mundo, quer na Música quer na Sétima Arte. Mais importante até do que isso, ela foi um ícone da cultura brasileira e da língua portuguesa com sotaque “tropical”, que foi uma das suas “imagens de marca” ao longo de toda a sua carreira, muitas vezes mais “fabricada” do que real (isto seria aliás o “reverso da medalha” mais tarde na sua vida).

Carmen Miranda, na verdade, após viver há uns anos no Estados Unidos, não só falaria inglês corretamente, como não teria o menor sotaque brasileiro ao falar a língua inglesa, sendo no entanto convidada sempre a representar papéis com o “dito sotaque”, ou na sua língua mãe, não tendo conseguido “desfazer-se” do mito criado com a sua própria imagem inicial. Pode dizer-se, creio eu, que a mulher, a pessoa, acabaria por ser suplantada pelo mito que representava, deixando pouco espaço à mudança e à evolução que ela própria naturalmente poderia ter conseguido, noutras condições, como intérprete e enquanto indivíduo…carmenmiranda1

Este é um dos flagelos, se me permitem o aparte, dos mitos muito fortes, em torno de uma imagem intransponível e incontornável…Talvez por isso mesmo, a sua carreira brilhante foi acompanhada nos últimos anos por uma profunda depressão e pela continuação do uso e abuso de substâncias, tendo Carmen Miranda, ou Maria do Carmo – a mulher, tentado ultrapassar por algumas vezes os vícios e dependências onde se deixara “atolar”, infelizmente sem sucesso.

Consta que a última tentativa de desintoxicação terá sido feita cerca de um ano antes da sua morte, quando regressou pela última vez ao Brasil do seu coração, para se tratar também da depressão em que se encontrava.

Esta desintoxicação, que durou quatro meses, foi no entanto apenas parcialmente bem sucedida. Carmen Miranda não teria conseguido libertar-se de todas as dependências apesar desta tentativa de cura.

Também não terá conseguido tratar-se definitivamente da depressão de que padecia e após o regresso à sua casa nos EUA, voltar ao ritmo frenético de trabalho, contribuiu certamente para um esgotamento físico e psicológico que a fragilizou muito. No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, os espectáculos eram imensos e Carmen cumpriu com todos, provavelmente, ate à exaustão que a levou a sucumbir precocemente.

Durante o esplendor da sua carreira, Carmen passou a depender, para além do tabaco e do álcool, de estimulantes para acordar e trabalhar e de sedativos para dormir e descansar, aguentando o ritmo electrizante da sua carreira à custa dos barbitúricos que a iam destruindo em termos físicos e mentais. Não era um caso único, numa altura em que não se conheciam bem as consequências graves do uso e abuso de substâncias como o álcool, o tabaco e as drogas adquiridas legalmente. No meio artístico era comum a utilização destas substâncias e infelizmente frequentes as suas graves consequências, fatais em muitos casos, como no de Carmen.

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Na sua carreira, Carmen passou a depender, para além do tabaco e do álcool, de estimulantes para acordar e trabalhar, e sedativos. para dormir e descansar

Não é também por acaso que Marilyn Monroe sucumbe de igual forma. Marilyn, que surge sensivelmente na mesma época, apesar de nascida em 1926, bem depois de Carmen, vai estar no auge da sua carreira uma parte da sua vida ao mesmo tempo que Carmen Miranda e tem um desfecho de vida igualmente trágico em 1962, apenas sete anos após o falecimento de Carmen Miranda, curiosamente também a 5 de Agosto e por motivos muito similares (à partida).

Os mitos de uma geração que, quer no feminino, quer no masculino, não conseguiram fazer sobreviver a pessoa ao mito. O mito viveu mas elas e eles morreram demasiado cedo, quase sempre pelos mesmos motivos: uso e abuso de substâncias, ritmos frenéticos, e colapso ou ataque cardíaco fatal.

Voltando a Carmen Miranda, Maria do Carmo, chegou pela primeira vez ao Brasil, ao Rio de Janeiro, quando tinha sensivelmente um ano de idade, com a sua família, e foi lá que viveu até à fama a transportar para os Estados Unidos da América onde viveu até à data da sua morte.

A sua carreira foi estrondosa, repentina, e, infelizmente curta, já que Carmen Miranda viria a falecer na manhã de 5 de Agosto de 1955, com apenas 46 anos, na sua casa nos Estados Unidos, após ter estado no dia anterior num programa onde se terá sentido mal. Regressada a casa ainda terá estado com amigos e até cantado para eles, disse-se à época, tendo depois ido descansar para o seu quarto. Na manhã seguinte, alegadamente por volta das 10.30h da manhã, Carmen Miranda era encontrada sem vida.

As origens portuguesas de Carmen Miranda são humildes. Maria do Carmo foi a segunda de seis filhas de um casal humilde a viver no norte do país. Seu pai era barbeiro e a sua família terá emigrado para o Brasil, numa época em que muitos europeus do Sul – portugueses, espanhóis e italianos sobretudo – navegavam além Atlântico, muitas vezes a bordo de navios com parcas condições, em busca de oportunidades e de uma vida melhor.

Carmen Miranda nasce em Portugal, cedo vai para o Brasil, mas é nos EUA que vive a maior parte da sua curta vida.

Carmen Miranda nasce em Portugal, cedo vai para o Brasil, mudando-se depois para os EUA.

Quando a família de Carmen Miranda chegou ao Rio de Janeiro, por volta do ano de 1910, a “cidade maravilhosa”, contava com uma população de cerca de um milhão de habitantes, dentre os quais cerca de duzentos mil eram de nacionalidade portuguesa.

Carmen viveu no Rio, demonstrando desde cedo forte aptidão para a música e dança, entre sonhos de menina em ser atriz ou cantora. Hábil com a costura e preocupada com os trajes, dada à comunicação e de fácil habituação às línguas e idiomas, a vida levou-a no entanto à boémia desde cedo e era no Bairro da Lapa, conhecido pela “boémia e pela malandragem”, que Carmen dava os primeiros passos num estilo de vida árduo de ser abandonado mais tarde…

A sua habilidade para a costura permitiu que tivesse o seu trabalho desde os 14 anos, primeiro numa loja de gravatas, posteriormente numa chapelaria. Aos 16 anos abandonava definitivamente os estudos e passaria por vários empregos.

Apesar da resistência dos seus pais, Maria do Carmo desejava enveredar pelo caminho das Artes e da Performance e não se contentava com uma vida simples e vulgar. Assim, numa época que antecedia e “Era de Ouro da Rádio”, Carmen aproveitava o seu tempo livre para participar, cantando e atuando sempre que podia, em festas que decorriam na cidade.

Carmen foi descoberta por acaso, entre empregos que ia tendo, onde sempre cantarolava e encantava, até que um cliente, dentre os vários que a iam ouvindo, lhe terá feito um convite para uma apresentação no Instituto Nacional de Música. Foi a oportunidade que a fez rumar ao sucesso, num caminho imparável!

O sucesso e a fama de Carmen foram quase instantâneos, após esta descoberta e ela trabalhou, afincadamente, para os ganhar, manter e fazer crescer ao longo do caminho. A sua forte aptidão para a interpretação artística deu os seus primeiros frutos em 1929, teria Carmen 20 anos de idade, quando fez a sua primeira gravação com o suporte de Josué de Barros, um compositor da época. Brunswick e RCA Victor foram as editoras responsáveis pela gravação dos seus primeiros discos.

Em 1930, o sucesso foi alcançado por Carmen Miranda com “Pra você gostar de mim (Taí)”, a marchinha de Joubert de Carvalho, que vendeu 35 mil discos.

Neste mesmo ano, depois da estreia do filme onde participou , “Alô, alô Carnaval”, Carmen e a sua irmã Aurora Miranda, que também cantava, foram contratadas para integrar o elenco permanente do casino da Urca, um dos locais de shows mais conhecidos nos anos 30.

A sua primeira digressão internacional não tardou e em 1933, Carmen Miranda encantou também fora de portas, na Argentina, em Buenos Aires, onde cantou e onde terá regressado no ano que se seguiu. No Brasil, Carmen já era um dos maiores sucessos da altura e tornava-se agora, inexoravelmente, uma das maiores cantoras brasileiras com eco além fronteiras.

A Pequena Notável, como também ficou conhecida, pela sua estatura baixa, ia-se tornando assim um verdadeiro mito no Brasil e sua fama espalhava-se um pouco por toda a América do Sul. Os anos 30 começavam por declarar o samba e as marchas de Carnaval como ritmos populares e Carmen consagrava-se como cantora, nestes e noutros estilos musicais.

Gravou mais de vinte temas por ela interpretados, de autores brasileiros muito populares, como Pixinguinha, Noel Rosa, Ary Barroso, Cartola e Assis Valente, passando por diversos estilos musicais. Interpretou Tangos (um dos géneros de sua eleição), Sambas (pelos quais ficou bem mais conhecida, até lhe chamaram “sambista”, porque os cantou e dançou numa época em que os sambas eram dançados e cantados sobretudo pela população negra no Brasil e Carmen, de pele branca, olhos verdes e traços marcadamente europeus, teve a coragem de “vestir o samba de corpo e alma”, com profundas consequências, provavelmente, para a generalização que o Samba teve mais tarde no Brasil, sobretudo no Rio), Marchas, Lundu, Foxtrot.

Nas suas digressões, Carmen Miranda passou por todos os estados do Brasil e pelos países da América latina, não só a Argentina, mas também o Uruguai, onde atuou várias vezes alcançando uma imensa popularidade. De salientar que digressões nesta época por todos os estados do Brasil, tinham qualquer coisa de extraordinário e especial, já que a maioria dos artistas optavam apenas por atuar no Sul e Sudeste brasileiros, porque a falta de acessos, ausência de estradas e distâncias imensas entre estados, não tornavam as viagens fáceis… Carmen Miranda no entanto, vai em digressão por todos os estados do Brasil, inclusive o belo Nordeste brasileiro.

A sua atuação no Nordeste em 1932, marca uma destas suas passagens absolutamente fantásticas: Carmen viajara a bordo do navio Ruy Barbosa, acompanhada pelo seu pai e desembarcaria no Recife. Daqui ela teria ido até Salvador, Baía e Pernambuco, para atuações. Estas apresentações tornavam-se, no contexto referido, verdadeiras homenagens aos estados e cidades visitadas pelos artistas e Carmen Miranda prestava, assim, a sua homenagem às gentes daquelas terras, tendo sido brindada por plateias afetivas e calorosas, com muitos rapazes entre o público que lhe chamavam então: “Morena do céu”.

Diria durante esta estadia em solo nordestino, o então poeta Ascenso Ferreira, chamando Carmen Miranda ao palco do Teatro Santa Isabel: “Com ela, a tragédia foi morta pelo bom humor e a tristeza nativa se mudou em festa de batuque e bombos.” E assim era. Por onde passava Carmen, um rasto de alegria e energia vibrante ficava nas salas. Todo o seu brilho animava plateias imensas, que esqueciam dores e miséria perante as suas atuações.

Também à Sétima Arte chegava o brilho de Carmen Miranda. Rapidamente a sua participação como figurante em algumas películas se transformou na principal atração de outros tantos filmes. Terá participado pelo menos em sete películas de produção brasileira. Ganhou o estrelato na primeira das mais de vinte longas metragens da sua carreira, em 1932, “O Carnaval Cantado”, sob a direção de Adhemar Gonzaga. Carmen Miranda alcançou uma notariedade inigualável no país que a adoptou, tornando-se a artista com a  melhor remuneração do Brasil.

Passaram-se dez anos de elevados níveis de performance e muito trabalho para Carmen Miranda, devidamente reconhecido no Brasil, onde se tornou atriz e cantora consagrada. Até que em 1939, Carmen teria já alcançado o cume do sucesso “em casa”, Lee Schubert, um empresário conceituado da Broadway, visita o Rio de Janeiro com o objetivo de conhecer e ver a performance de Carmen no seu show habitual no Casino da Urca. É ele quem a vai finalmente levar para os Estados Unidos, juntamente com o grupo musical que a acompanhava, o Bando da Lua.

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Carmen Miranda e o “Bando da Lua”, a banda que a acompanhava.

Carmen Miranda já tinha recusado uma proposta para trabalhar nos Estados Unidos, quando fora convidada por Tyrone Power, em 1938. Mas. quando lhe foi novamente colocada uma proposta de carreira, desta vez para a Broadway, ela aceitou o novo projeto de trabalho e assinou contrato com a revista musical “Streets of Paris”.

Para aceitar esta proposta pesou certamente o facto do governo de Getúlio Vargas, interessado fundamentalmente em divulgar a imagem e identidade cultural e política do Brasil no exterior, ter apoiado e ajudado a cantora a mudar de residência prestando-lhe suporte no que se mostrasse necessário.

Carmen Miranda passava a ser uma representação do Brasil no Mundo, protagonizando bem mais do que até então. Para este novo papel, bem nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, Carmen veste pela primeira vez o trajo baiano, com frutas “à cabeça”, inspirado nas mulheres vendedoras de fruta da Baía, imagem que foi imortalizada e recordada para sempre.

Este tornou-se um dos momentos mais marcantes na vida de Carmen, num ano que seria um novo impulso na sua carreira e na sua vida! Carmen saía da sua zona de conforto, da cidade e do país que a acarinhava e abraçava um novo projeto. Embarcava no mês de Maio para os EUA, sem saber sequer língua inglesa e despede-se do Brasil com sentidas palavras: “Meus queridos amigos, sigo para Nova Iorque, onde vou apresentar a música da nossa terra. Às vezes tenho medo da responsabilidade. Lembrem-se de mim, que eu nunca os esquecerei”. Carmen Miranda deixava o Brasil e rumava para novos sucessos nos EUA, onde se tornou um fenómeno assombroso, um fenómeno de cultura de massas!

Nos Estados Unidos passou a ser das estrelas mais resplandecentes da Broadway: aparecia em programas vários de televisão e rádio, todo o tipo de eventos, era convidada e participava em filmes de Hollywood. Passou a ser conhecida como a “bomba brasileira” ou a “explosão brasileira”.

De forma extraordinária, penso eu, Eliane Raslan, uma investigadora da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), analisa o fenómeno de Carmen Miranda na Sétima Arte em Hollywood, como tendo um papel catártico: por um lado os norte-americanos observam Carmen no grande ecrã e esquecem-se por momentos da guerra. Por outro lado, o povo brasileiro, sente uma forma de aceitação e reconhecimento perante uma representação nacional de tamanha dimensão no cinema “fora de portas”.

Nesta linha de análise, com a qual estou inteiramente de acordo, Carmen é um fenómeno de massas, de identidade e identificação cultural, de libertação e catarse. Parece ter um papel ou uma missão muito para além da fama efémera.
A população norte-americana aceita Carmen Miranda de uma forma absolutamente fantástica, o que gera até alguma perplexidade à própria! Ela interrogar-se-ia como poderiam eles gostar de a ouvir, sem perceber nada do que ela dizia – não esquecendo que Carmen falava nesta altura sempre em português com o sotaque brasileiro.

Num documentário muito interessante, datado de 1995, “Bananas Is My Business”, de Helena Solberg, o músico Aloysio Oliveira descreve o que observava nos norte-americanos e que Carmen parecia não entender, que passava por não ser a música que os impressionava, ou a letra da mesma. Descreve o músico que eles ficavam impressionados com ela, absolutamente extasiados, quase hipnotizados por ela…como se ela estivesse numa dimensão diferente dos demais.

Verifica-se pois que o mito se cria a partir da própria personagem, a sua figura carismática, muito para além da música ou da palavra…ou da beleza…um carisma extraordinário, algo muito especial que Carmen tinha e que conseguia passar ao público.

No mesmo mês em que Carmen havia chegado aos EUA, a sua nova morada, estreava em Boston o musical “Streets of Paris”, onde era protagonista. O sucesso não se fez esperar… consta que Judy Garland, uma das mais conceituadas estrelas de Hollywood à época, fez questão de ir ver Carmen Miranda nesta sua fabulosa interpretação, por cinco vezes! Menos de um ano depois, em Março de 1940, Carmen Miranda seria chamada a participar numa apresentação especial numa festa na Casa Branca, para o Presidente dos EUA, Franklin Roosevelt.

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…o mito se cria a partir da própria personagem, a sua figura carismática, muito para além da música ou da palavra…ou da beleza…um carisma extraordinário…

Precisamente nesta altura, no começo da década de 40, Carmen Miranda é convidada a integrar o elenco daquilo que será o seu primeiro filme em Hollywood: a longa metragem “Serenata Tropical”, da 20th Century Fox (embora somente enquanto cantora). Ainda assim a sua participação vale a esta película um sucesso de bilheteira, quando da sua estreia em Outubro do mesmo ano. E em 1941 é a vez de “Uma noite no Rio”, uma produção cinematográfica onde Carmen Miranda mais uma vez se faz ver e ouvir.

Toda a década de 40 e o começo dos anos 50 (até 1953), foi para Carmen Miranda uma altura de esmagador sucesso nos EUA, país que foi sem dúvida a sua segunda casa, tendo ela participado em vários programas de televisão e de rádio, feito apresentações em casinos, teatros e clubes nocturnos, tendo ainda participado em cerca de treze filmes da Sétima Arte norte-americana. As vestes populares e extravagantes de baiana, os saltos “plataforma” a que deu nome e que usou para aumentar os seus 1,52 m de altura, as correntes e brincos de ouro que envergava, bem como as frutas tropicais à cabeça ou turbantes coloridos tornar-se-iam a sua “imagem de marca” em todas as apresentações e produções e como foi recriada e lembrada no mundo inteiro.

Carmen Miranda faria, inicialmente, as próprias roupas, dando um cunho muito pessoal ao que vestia. Esta sua imagem (de um Brasil popular e tropical) foi a que lhe ficou associada, muitas vezes sob a forma de caricatura (ou mesmo ridicularizada em certos meios intelectuais, que mesmo no Brasil, nunca aceitaram muito bem a figura ou imagem de Carmen Miranda, o que ela representava na cultura e identidade brasileira ou mesmo o samba, que ela teria adotado enquanto seu, mas que era rejeitado pelas elites brasileiras, adeptas do clássico e do jazz e mais tarde da Bossa Nova, deixando o samba para a periferia, para as franjas sociais do Brasil). Era lá, no meio popular, que Carmen encontrava o seu lugar, mas a sua fama chegou a muitas das designadas elites em todo o mundo.

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O sucesso de Carmen Miranda nos EUA rendeu-lhe uma estrela na “Calçada da Fama”.

Enquanto isto sucedia, no entanto, o sucesso que tinha junto de um público cada vez mais internacional e abrangente, fazia de Carmen Miranda, uma das atrizes e cantoras mais bem remuneradas em Hollywood.

Indiferente às elites do Rio de Janeiro, que a rejeitaram desde o começo do seu caminho rumo ao sucesso, em solo norte-americano Carmen Miranda viu-se consagrada logo em 1941, dois anos depois da sua chegada, tendo-se tornado a primeira e única luso-brasileira a gravar as suas pegadas e mãos no cimento da calçada da fama do Teatro Chinês, em L.A. Sendo que, como se referiu, inicialmente, também mereceu uma estrela com o seu rosto na Calçada da Fama, em Hollywood Boulevard.

Carmen Miranda tornava-se uma incontornável representação do Brasil tropical no Mundo. A sua imagem concebida, inicialmente, para a comédia-musical “Bananas Da Terra” em 1939, era a que lhe ficaria associada para sempre, inclusive até aos dias de hoje. Carmen era admirada e muito acarinhada pelo povo e pelas elites nos EUA, que nunca a esqueceu.

Ficava também o seu legado na Moda, o “Miranda look”, que nasce das suas roupas coloridas e extravagantes, de forte impacto, passando a ser adoptado por vários estilistas ao longo dos tempos, estilizado e recriado em muitos momentos da moda no mundo ocidental, primeiro nos EUA e posteriormente na Europa. Ainda hoje, os turbantes são uma marca deste “look” Carmen Miranda, aparecendo em algumas coleções com um toque revivalista sempre na moda.

O impacto de Carmen Miranda foi muito para além da música e da Sétima Arte, marcado também pelo momento político que se atravessava no Brasil e nas suas relações externas, bem como, o momento chave para a Europa e EUA, marcado pela Segunda Guerra Mundial, que iria acompanhar um tempo considerável do trajeto de Carmen Miranda, sobretudo aquando da sua permanência em solo americano.

Neste contexto Carmen Miranda expandia pelo mundo a cultura, as músicas e danças brasileiras, distribuindo afeto e sensualidade, alegria e a energia frenética um pouco por toda a parte. A sua influência era enorme, Carmen era até o rosto das relações comerciais do país em solo americano, nomeadamente dando a sua imagem ao café brasileiro, pousando ao lado do Café em eventos e Feiras Internacionais, quando o café era um produto fundamental nas exportações do Brasil da época e de importante peso na sua economia.

Nos EUA, o sucesso de Carmen era estrondoso e ela seria a cabeça de cartaz do Copacabana Nightclub, um famoso clube nocturno em Nova Iorque, fundado precisamente em 1940. Apesar de todo este sucesso internacional, Carmen Miranda, confessava com genuína simplicidade que a felicidade para ela continuava a ser o que sempre havia sido: “um bom prato de sopa e liberdade para cantar”.

Na sua vida pessoal, no entanto, a felicidade e o brilho que traziam luz às suas atuações, pareciam falhar. Após o seu casamento com David Sebastian em 1947, um norte-americano que foi além de seu marido, seu desastroso empresário, aquela que tinha sido no ano anterior uma das maiores remunerações em Hollywood, começa a sofrer da decadência própria do “esmorecer” das estrelas.

Tristemente os negócios nas mãos de David são mal geridos, levando a danos desnecessários, e Carmen Miranda vai-se tornando cada vez mais dependente do álcool, do tabaco e do barbitúricos. Começara a decadência precoce de uma estrela das mais brilhantes que o mundo já vira.

Após uma profunda depressão e uma tentativa de desintoxicação durante uma estadia prolongada por quatro meses, no Brasil, em 1954, o regresso aos EUA evidencia que as terapias não foram completamente bem sucedidas. Apesar disso, Carmen volta ao trabalho, e durante o ano de 1955, reinicia as digressões e participação em programas de televisão.

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Carmen Miranda faz a sua última aparição no programa de Jimmy Durante.

É fatalmente num destes programas, no programa dirigido pelo comediante Jimmy Durante, que Carmen faz a sua última aparição em vida perante o grande público, em Agosto de 1955. Após um ligeiro “mal-estar” enquanto dançava no programa, Carmen Miranda ausenta-se e vai para a sua residência. Aqui iria jantar e ainda confraternizar, cantando e encantando alguns amigos, antes de se retirar para descansar.

Na madrugada de 5 de Agosto de 1955, Carmen terá morrido, alegadamente, por ataque cardíaco fulminante, com apenas 46 anos. Foi encontrada durante a manhã sem vida. A sua imagem baiana, torna-se parte integrante da cultura artística dos EUA, onde jamais foi esquecida, mas onde também nunca lhe foi possível evoluir para algo diferente…

Na Europa, a imagem ficou também fortemente marcada pela importação dos filmes norte-americanos da época e pela ligação de alguns países, como o nosso, à cultura brasileira, tão bem representada por esta portuguesa de alma e coração tropicais…

No Brasil, ela foi atriz e cantora consagrada e amada. Quando da transladação do corpo de Carmen Miranda para o Brasil, o cortejo fúnebre reuniu mais de meio milhão de pessoas junto ao cemitério de São João Baptista, em Botafogo.

No Aterro do Flamengo, na cidade do Rio de Janeiro, o governo criou o Museu Carmen Miranda. Alguns dos temas interpretados por Carmen Miranda permanecem até hoje na memória coletiva: “Chica-chica-bum-chic“, “Isto é lá com Santo António“, “O que é que a baiana tem ?“, “South American Way“, “O tique-taque do meu coração“.

Também seria, para sempre, lembrada pela sua participação na Sétima Arte em vários filmes. No entanto, viu a sua imagem impedida de ser utilizada na Televisão e no Cinema durante 17 anos, por questões de direitos biográficos entre interessados e familiares… A sua última aparição nos ecrãs, antes desta proibição, teria sido em 1995, no documentário que referimos anteriormente.

Lamentavelmente, o impasse sobre os direitos biográficos continuou, com o cansaço de ambas as partes envolvidas no processo, e com óbvia lesão à memória de Carmen Miranda e à sua eventual revitalização, de certa forma, que teria de passar pelos ecrãs e por dar um novo e reconquistado ímpeto ao mito e à mulher, para além do mito. No ano de 2005, foi inaugurada uma exposição em grande escala sobre Carmen Miranda no Museu de Artes Modernas, com cerca de 700 itens, de entre fotografias, trajos, jóias, discos e outros, do seu espólio pessoal, de colecionadores e de família e também cedidas pelo Museu Carmen Miranda. A Mulher, que foi das mais bem pagas no Brasil e em Hollywood, que se atreveu a ser diferente, que ousou, que desafiou o racismo e o preconceito do Brasil, do Rio de Janeiro “branco” e das elites que não ouviam nem dançavam as músicas dos negros da periferia, como o samba da época, fica eternizada no Mundo.

A jovem Carmen, uma carioca, de origem portuguesa, branca de cabelo moreno, de olhos verdes e traços marcadamente europeus, mulher, cantou e dançou o samba, vestiu-o e trajou-o de branco, de feminino e de glamour e “requebrou”, como ninguém fez antes, aquela música. Tornou-se um ícone da cultura e identidade popular do Brasil no Mundo, verdadeira embaixatriz da sensualidade e da alegria tropical, que consegue trazer momentos de paz e humor, fantasia e sedução e até de paródia, em momentos de tristeza imensa e dor profunda num mundo endurecido e ferido de morte, pelas atrocidades cometidas contra os vários povos pela Segunda Guerra Mundial e por tudo o que ela envolveu, diferentemente de outras guerras…e tão similar a todas as guerras…

Foi, ela própria, vítima de um certo “nacionalismo” da época, que parecia destruir, em alguns momentos, o que de bom existe, no cantar e amar a pátria… coisas que acontecem, aliás, sempre que se confunde nacionalismo com patriotismo, o que não é de todo a mesma coisa e no rescaldo da Segunda Guerra Mundial, deveria ter sido muito melhor diferenciado…

Por outro lado, existem pessoas e Carmen, provavelmente, seria genuinamente uma delas, cuja alma imortal toma contornos internacionais e deveriam ser livremente cidadãs do mundo… Mas, para Carmen, esta liberdade não foi possível… os seus sonhos não foram acompanhados pelo sucesso do mito e foram, inexoravelmente, ultrapassados por ele. Carmen ficaria para sempre prisioneira daquela imagem baiana e do sotaque brasileiro, quer quisesse quer não, acabando por se transformar num limite à sua carreira e à pessoa, à mulher. Carmen foi um ícone representativo da política levada a cabo pelos EUA dos anos 40, em busca de aliados na América Latina, para a Segunda Guerra Mundial. Esta “política da boa vizinhança”, empreendida pelos EUA, muito bem representada aliás pelo personagem Zé Carioca da Walt Disney, foi, no entanto, muito bem conseguida com a própria personagem de Carmen Miranda, um hit nos EUA, uma brasileira de sucesso em solo norte-americano.

Carmen Miranda figurou junto de personagens conhecidas dos desenhos animados, como Tom e Jerry e o Popeye. Foi caricaturada e imitada nas Telas por atores como Jerry Lewis, Lucille Ball, Bob Hope, Dean Martin, entre outros, porque a sua personagem engraçada e cómica, se prestava a isso. Contracenou com alguns destas atores também, dentre outros nomes conhecidos como: Alice Faye, Betty Grable, Jane Powell, Vivian Blaine, etc.

Apesar de todo o estonteante sucesso, Carmen continuava, no entanto, sempre a ser “obrigada” a interpretações “latinas”: brasileira, cubana, mexicana, porto-riquenha ou mesmo cigana, mas sempre com a marca da “garota latina”. E isto foi algo a que nunca conseguiu fugir e contra a sua vontade, a partir de certo momento.

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Na sua vida pessoal, confessava não ter conseguido realizar-se afetivamente, nem no casamento, que padecia de amor sincero…

Na sua vida pessoal, confessava não ter conseguido realizar-se afetivamente. Nem no casamento, que padecia de amor sincero, segundo a própria, tendo sido da sua vontade, mais pela companhia e por não querer estar só. Mas sendo um fracasso, mesmo em termos de família, já que queria ter sido mãe e após uma primeira tentativa, em que teria tido uma perda gestacional, não tendo conseguido engravidar novamente, ficando também essa realização pessoal e afectiva, por preencher… Nesse sentido Carmen não terá sido feliz, segundo a própria… E na carreira, a certo momento, também não…

Por isso mesmo, talvez, apesar de todo o esplendor que trouxe ao Mundo, a expansão da cultura e da música brasileira, a chama ardente da sua alma ficava desvitalizada pelo impedimento, que foi imposto pela sua própria marca, pelo mito que ela mesma conseguiu criar em torno de si própria e de uma imagem, que a ajudaram a fabricar e mantiveram refém todo o tempo que foi possível… Isto era um dos fatores práticos, que a impedia de ser autêntica e de se lançar noutros projetos. Carmen, o mito, foi usado por todos até à exaustão, até pela própria em muitos momentos da sua vida e acabou por ir consumindo o seu Eu, a sua alma e a sua energia vital, que esmorecia a cada dia que passava…

Aquilo, que em certo momento foi o seu maior investimento pecava pelo cansaço de uma imagem que não a deixavam inovar, recriar e transformar noutra coisa qualquer… Impedirem alguém que é cantora e atriz de falar o inglês perfeito e correcto, que já aprendera e que, aliás, falava também na sua vida privada, sem mácula e sem pronúncia, que não fosse a da cidade onde vivia há tantos anos, em solo norte-americano e, condenarem-na a uma vida aprisionada às frutas à cabeça, trajes espalhafatosos e sensualidade brejeira, mesmo quando isto, provavelmente, já não fazia assim tanto sentido à alma inovadora e criativa que era Carmen, só poderá ter contribuído para a sua própria desventura… Traços comuns aos mitos que superam o próprio Eu e que, ao invés de o libertarem, o tornam refém daquilo em que se tornaram, daquilo que vende, daquilo que gerou a fama… Ter de ser genuinamente brasileira a todo o momento, ter sotaque tropical e trajar em tons coloridos e quentes, passava a ser uma obrigação doentia para a mulher para além do mito, atrevo-me a pensar…

A propósito disto mesmo e acerca de Carmen, diria o investigador José António de Barros a certa altura: “ Samuel Johnson dizia que o nacionalismo é o único refúgio dos canalhas. Ela foi uma vítima desse tipo de mentalidade, você sente um patrulhamento ideológico. Ela tinha de se posicionar e devia estar de saco cheio de cantar o Brasil. Quis cantar tango, mas não podia. Ela tinha de fazer um acarajé por dia, para provar sua brasilidade.”

O que é facto, é que o fez, brilhantemente, até ao fim da sua vida… A mulher para além do mito, foi superada pelo mesmo e, infelizmente, a ele sucumbiu provavelmente…. Mas, tal sacrifício pessoal, também pode ser visto como uma entrega a algo que Carmen, fatalmente, teria de ter percebido que era maior do que ela, maior do que a fama, era o mito e tudo o que ele representava no Mundo, na aproximação e na cultura entre os povos, na alegria e humor que levam à catarse e à paz terapêutica em tempos de guerra, em tempos em que o mundo está ferido… Ser essa luz no meio das imensas trevas em que o Mundo havia mergulhado é um feito que apenas coube a alguns… E Carmen teve esse mérito, aquecendo os corações e levando o sorriso e a voz, a alegria num mundo mergulhado em intensa escuridão…

Sob um preço pessoal demasiado elevado provavelmente, não se lhe retire o mérito da diva e estrela brilhante que foi em momentos únicos que só a Arte consegue levar e fazer chegar a todos…
Carmen foi uma das estrelas das mais brilhantes que já vimos, e se essa luz não serviu para iluminar a sua própria vida, não se lhe retire a parte que deu de si aos outros… Goste-se ou não do estilo…

Em termos pessoais, poderá não ter sido feliz, segundo as suas próprias palavras, ficou muito por realizar do ponto de vista afetivo, algumas mágoas mais profundas, mas foi sem dúvida a depressão e os vícios – álcool, tabaco e barbitúricos – bem como a boémia e a vida nocturna, os ambientes pouco saudáveis e o ritmo alucinante e frenético de trabalho, que a teriam levado precocemente…

O mito no entanto ficou, mais ainda nos EUA do que no Brasil ou na Europa… O Mito é eterno. No entanto creio ser quase um dever na verdade, não só brasileiras e brasileiros, como portuguesas e portugueses, população de países de língua oficial portuguesa e nativos de países de tradição e cultura latina, conhecerem melhor Carmen Miranda no que está para além da eterna baiana de cesta de frutas à cabeça, porque Carmen foi muito mais do que isso. Carmen Miranda difundiu, de forma soberba, a língua portuguesa, a cultura brasileira e a cultura latina de uma forma geral, numa altura em que dificilmente se conhecia a nossa língua e muito raramente chegava aos vários lugares do mundo, alguém dos países tropicais e essa cultura, como tudo o que a caracterizava.

Carmen teve ainda uma postura anti-xenofobia e anti-racismo maravilhosa, numa época em que Carmen viu os seus amigos e músicos negros, que integravam uma das bandas que a acompanhava, serem afastados pela cor da pele, em momentos de segregação racial grave em todo o mundo… Ela nada podia fazer, mas continuou sempre a estar junto deles e de outros amigos, mesmo nos Estados Unidos segregacionistas da época… Paravam por vezes pessoas, junto dela, por acompanhar com amigos de outro tom de pele, para saber se estava tudo bem… Carmen nunca vacilou… Deu-se ao mundo com a sua energia e com a sua voz a todas as cores, a todas as culturas, dançando em todos os tons e sons que lhe foram consentidos e permitidos.

Apesar de tudo, nunca deixou de ser quem era, genuína, sincera, uma explosão de luz… Difundiu o mundo latino, falado em português e afirmou-se nos EUA… Ninguém o fez até agora como ela o fez… Carmen teve esse papel importante, impagável… Devemos-lhe isso!

NDR: Existem vários documentários sobre a vida e obra de Carmen Miranda e por não ser possível encontrar o “Carmen Miranda Banana’s my Business”, deixamos aqui dois documentários, para ver e desfrutar de Carmen Miranda. 

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