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Caminho de Santiago – Entrevista com Ricardo Dias

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Muitos são os portugueses que nesta altura do ano, a pé ou de bicicleta, fazem um dos caminhos mais conhecidos da Europa, o Caminho de Santiago, embora surjam de todos os recantos do país, é do norte de portugal que cada vez mais peregrinos se fazem ao caminho em direcção a Santiago de Compostela. A cidade de Santiago de Compostela encontra-se situada a noroeste de Espanha, dos seus inúmeros e belíssimos monumentos destaca-se a Catedral.

A Catedral de Santiago de Compostela é um templo católico construído no inicio do século XI a XII, em estilo maioritariamente românico e acolhe o túmulo do apóstolo São Tiago, padroeiro e Santo protector de Espanha. Esta cidade é uma cidade que surge da devoção de milhões de peregrinos que começam a surgir após a descoberta do túmulo, conta a lenda local que um ermitão, por volta de 820, descobriu o túmulo num local indicado por um Campus Stellae (chuva de estrelas), expressão que deu origem a Compostela. No local onde se testemunhou tal acontecimento, D. Afonso II o Casto, rei das Astúrias mandou edificar uma igreja e um mosteiro. Por esse motivo,durante a idade média começaram a surgir as primeiras peregrinações cristãs à Catedral, tornando-a a seguir a Roma num dos principais destinos de peregrinação na Europa.

Actualmente, o Caminho de Santiago continua a ser um dos maiores destinos de peregrinação. A Catedral, como já foi referido ostenta como principal estilo o românico, no entanto e por ter sido construída na época das cruzadas e da reconquista cristã, contempla também outros estilos como o gótico, barroco e o renascentista, sendo o resultado desta mistura uma riqueza nos detalhes das fachadas contrastando com a sobriedade no restante do edifício, marcado pelas poucas janelas.

Ao longo do Caminho de Santiago, o peregrino poderá encontrar albergues para descansar e fazer as suas refeições, locais de culto para poder rezar, hospitais e enfermarias para poder tratar as lesões que vão surgindo.
Partia-se e parte-se em peregrinação por várias razões e cada peregrino levará a sua razão consigo, mas normalmente será para solicitar uma intercessão, para agradecer, para pedir perdão ou até apenas para se reencontrar emocional e espiritualmente.

Certamente não retornará interiormente com os mesmos sentimentos e espírito com que partiu, pois ao longo do Caminho com as dificuldades, com a interacção com os outros e por outros factores a maneira de olharmos para o mundo será sempre diferente.

Maria Raquel entrevistou Ricardo Dias, que este ano fez pela segunda vez o Caminho de Santiago de Compostela de bicicleta. Deixando-se motivar pela filosofia de “casa às costas” que teria observado em outros peregrinos, partiu pela primeira vez em 2014 do Porto, sendo que o seu principal objectivo era reencontrar a sua estabilidade emocional que tinha sido recentemente abalada.

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A necessidade de quebrar a zona de conforto, levaram Ricardo Dias a uma aventura de cerca de 300Km em bicicleta.

Ideias e Opiniões IO – Quais os sentimentos e/ou motivações que o despertaram a fazer o caminho de peregrinação a Santiago de Compostela?
Ricardo Dias RD – Antes de 2013, o Caminho de Santiago nunca me chamou à atenção. Até que comecei a caminhar e a correr na marginal de Matosinhos, até ao Mindelo e a aperceber-me de pessoas com mochilas às costas a passar com alguma regularidade. De todas as idades, géneros, em grupo ou sozinhas. Gostei da “filosofia” inerente a esta forma de estar na vida. Mochila… e “aí vamos nós”. É verdade que ainda demorei algum tempo a ter a certeza de que iriam para Santiago de Compostela. Mas não “há grande alternativa”, pensava eu. Na mesma altura, comecei a atravessar problemas na minha relação conjugal, que vieram a culminar numa separação um tanto “abrupta” e “inesperada”, com problemas na custódia de 2 filhos (3 e 5 anos) pelo meio.

É então que no inicio de Maio de 2014 me ocorre fazer o Caminho de Santiago, pela principal razão de quebrar a minha zona de conforto e arriscar algo diferente. Uma novidade. Uma motivação grande, no meio de uma turbulência emocional que estava a viver.

Decidi ir de bicicleta em 3 dias. Não tinha férias para muitos dias. Mesmo assim e até então, o máximo que tinha andado de bicicleta numa só viagem tinha sido 40km. Bom… a primeira etapa teria 100 a 120km, a segunda outros 100km e a terceira cerca de 70km. Fiz treinos de “rolar” e “habituar-me” à bicicleta durante cerca de 1 mês. Não treinei todos os dias. Talvez 2 dias por semana. Mas a motivação era alta. Assim foi. Parti no dia 10 de junho de 2014 (no feriado nacional), com um colega de trabalho.

IO – É uma peregrinação que faz todos os anos, ou 2015 foi a primeira vez?
RD – Fiz a primeira vez em 2014 e a segunda este ano. Este ano, acrescentei mais um objetivo: Santiago até Finisterra e retorno no dia a seguir, também de bicicleta. Fiquei-me apenas pela ida e pelo regresso de camioneta.

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“Em 2015, o percurso ficou em cerca de 370 km, mas mais duros que os anteriores 300. Não pela distância, mas pelo tipo de terreno encontrado com alguns desníveis”

IO – De onde parte, qual a distância percorrida e qual o tipo de grupo que se faz ao caminho?
RD – Em 2014, fiz o Caminho Português da Costa, com algumas variantes pouco exploradas. No total de 300 km. Mas a distância pouco diz numa viagem como esta, pois o tipo de piso, o peso que levava nos alforges, o vento e outras condicionantes são praticamente “invisíveis” nas estatísticas. Mas moem!
Em 2015, o percurso ficou em cerca de 370 km, mas mais duros que os anteriores 300. Não pela distância, mas pelo tipo de terreno encontrado com alguns desníveis.
Há todo o tipo de pessoas a “fazer-se” ao caminho. De todas as idades, de todos os géneros, de todas as nacionalidades, com diferentes motivações.
Embora tenha sempre passado na Sé, no dia de cada partida para Santiago, saí do cruzamento de Monte dos Burgos, já do lado da Senhora da Hora.

IO – Como se motiva amigos ou colegas a participar numa peregrinação do género?
RD – Não se motiva. Apenas nos segue quem se identifica com a ideia de peregrinar ou viajar nas condições em que se faz: “casa às costas”, a caminhar ou a pedalar, ficar com algumas mazelas físicas, mas ficar também com uma satisfação de “dever cumprido”. Conhecer pessoas diferentes… é bom. Muito bom. Se alguém te acompanhar, será pelo testemunho que deste.

IO – Sendo de bicicleta, e tendo em conta os Kms percorridos, há uma forte exigência física e psicológica. Qual a preparação necessária para participar em algo do género? Treina muitas vezes? Como?
RD – Esse é um mito instalado, o de termos que ter uma preparação “fora do normal”. Claro que é preciso preparação, mas essencialmente a minha sugestão é que a pessoa aposte em ter o corpo o mais flexível possível e que aos poucos, vá caminhando ou andando de bicicleta, para se habituar. De preferência, levar um pouco mais de peso do que irá levar na viagem, para ter noção do esforço que será necessário. Obviamente, teríamos muito que falar nesta secção, mas resumo a isto: “Com motivação, somos imparáveis”.

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IO – Consegue dizer o peso que transporta? E que tipo de coisas leva?
RD –  Estupidez de principiante. Levei cerca de 17kg em 2014! Idiotice de quem tem medo que tudo vá correr mal. Fui preparado com comida a mais, roupa a mais e ferramentas e kits de reparação da bicicleta também a mais.
Reduzi tudo para 10kg em 2015. Já está mais dentro do razoável e do aceitável. Ainda assim, conto reduzir mais para as próximas vezes. É evidente que se pensarmos que vamos ter chuva e vento na viagem, o peso do equipamento nunca baixará muito mais do que isto. Há também que investir em compra de materiais mais leves, mais polivalentes, mais fáceis de lavar e secar, etc.
Equipamento indispensável para levar? É estranho, mas terei que responder máquina fotográfica, um bloco de notas, um gravador de voz digital, ou um equipamento que faça tudo isto, como um smartphone. Para registar a viagem e tomar notas de ideias que vão surgindo ao longo do Caminho.

IO – Onde passa as noites durante o caminho?DSCN2333
RD – Até hoje, só em Albergues de Peregrinos. Mas conheço quem faça acampamento selvagem. O que me agrada! Também quero experimentar.

IO – O que aproveita para fazer nesse tempo de descanso?
RD – Comprar comida, tomar banho, cozinhar, comer, confraternizar com outras pessoas e… tentar dormir. Sim. Raramente durmo em condições. O corpo está “quente” da viagem, a “adrenalina” alta. Além disso, ao lado, começam a ressonar, a mexer nos pacotes de bolachas, a contar anedotas, etc. É difícil. Mas faz parte da experiência!

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“Sentir que nos apetece desistir numa determinada parte do caminho mas que isso não pode acontecer”

IO – Quais as principais dificuldades físicas e psicológicas sentidas durante o caminho?
RD – O calor extremo. Pedalar com 38ºC e sem sombras, com subidas, com a bicicleta “às costas”. É duro.
Sentir que nos apetece desistir numa determinada parte do caminho mas que isso não pode acontecer. O foco, o objetivo tem de estar na mente. Seja como for… é para chegar lá.
Lidar com lesões e continuar com elas.

IO – Por certo haverá momentos que fazem duvidar da capacidade para finalizar o trajecto, ou pura e simplesmente já não há forças. Onde se vai buscar o alento?
RD – (risos). À parte interior que tem essa energia. À parte que nos faz dizer o máximo de asneiras por minuto, à parte que começa a contar anedotas, à parte que se lembra do filmes “Braveheart” e “Gladiator”, à parte do arquétipo do Herói. À parte que está em sofrimento e que precisa de saber que está à prova e que irá superar. Às pessoas que vão connosco e que se entre-ajudam.

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Chegar a Santiago não tem palavras. Estava cumprida a missão.

IO – Quais os sentimentos vividos durante a peregrinação? Quando chegou? E qual o contributo desses sentimentos para a sua vida quotidiana?
RD – Em 2014, foi uma sensação fabulosa. Nunca tinha ido a Santiago. Nunca tinha feito uma viagem similar. Nunca tinha tido um esforço físico tão grande. A minha motivação estava ao rubro. Maçarico para muitos que vão apenas com intuitos competitivos e desportivos (sim, há de tudo). Seja o que for, cada um que leve o que quiser e que traga também o que quiser. Em 2014, levei comigo motivação e esperança. Levei também raiva, ódio, frustração, tristeza. De uma forma ou de outra, tudo fontes de grande energia. Pelo caminho, nos últimos 20km, fiquei com uma tendinite do tendão de Aquiles. Sobreaquecimento. Sofrimento. Dor. Resiliência.
Chegar a Santiago não tem palavras. Estava cumprida a missão. Há muito que precisava de reencontrar a minha “ordem mental e emocional”. Preparar-me para esta viagem e realizá-la, permitiu-me re-encontrar esta ordem.
Um momento muito especial: o da missa do peregrino e o cântico da Irmã Maria Assunción a cantar Jubilate Deo. Mal o órgão começou a tocar e ela a cantar não consegui conter as lágrimas, foi uma carga emocional que começou a “despressurizar”. Nunca na vida um “mantra” tinha tido este efeito em mim.

IO – Qual o enriquecimento desta viagem?
RD – Reencontrei a minha ordem mental e emocional. Aprendi a conviver e a confiar mais.

IO – Quais foram os momentos mais importantes durante a peregrinação?
RD – Entreajuda, convívio durante a viagem, anedotas, dor física, dúvidas, lesão do tendão de Aquiles, paisagem da Costa, especialmente entre Bayona e Vigo, missa do peregrino, regresso a casa.

IO – Descreveu as suas principais dificuldades e de como as ultrapassava. Como lidou com as dificuldades de quem fazia o caminho consigo?
RD – Quem vai connosco faz parte do grupo. Se lhes acontece algo, há que ajudar. O Caminho a Santiago é apenas um reflexo do que é a nossa vida. Tudo pode correr bem, tudo pode correr mal, umas coisas correm bem e logo a seguir mal e vice-versa. Umas vezes connosco, outras vezes com outros. Cada um tem a sua motivação para lá chegar, mas o percurso é partilhado com outros. Só evoluímos em sociedade e não apenas connosco. Muito resumidamente… o simbolismo passa por comparar o Céu e a Terra. Podemos subir, mas teremos que trazer a “nova” informação à Terra. Se estivermos também “presos” à Terra, ajudar-nos-á quem nos mostre o “Céu”.

IO – Mencionou a missa do peregrino como sendo um momento muito especial. consegue descrever-nos esse momento mais especificamente?
RD – É fácil de descrever o efeito da música em mim. Mal começou, era impossível conter as emoções que já pediam para sair há muito tempo. Esse é o conceito do “mantra” em ação e não apenas no plano teórico.

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“Fica a certeza de que os últimos 4 anos me estão a ensinar a conhecer-me e a respeitar-me.”

IO – Percebendo as suas principais motivações e o que o levou a fazer o caminho de Santiago de Compostela, queria terminar questionando, se ficou algum tipo de sentimento e/ou devoção especial sobre o local?
RD – Especificamente sobre o “LOCAL”, não. Sobre as experiências, sobre as pessoas com quem me cruzei, sobre as “Histórias” e “Estórias” de vida? Ficou muito. Continuarei a fazer o Caminho, tentando variar os seus percursos ao longo do tempo e a forma como os realizo: a pé ou de bicicleta. Mas faz-me sentido agora iniciar a exploração a “solo” ou com alguém especial. Faz-me sentido assumir que necessito de um InterRail ou de um IntraRail; de uma viagem sem rumo definido, de bicicleta, em modo autónomo; de mais caminhadas.
Fica a certeza de que os últimos 4 anos me estão a ensinar a conhecer-me e a respeitar-me. A “ouvir” o meu corpo. A dar-lhe o que necessita. Para isso, há que encontrar o equilíbrio entre o “Céu” e a “Terra”, pois é entre estes 2 pólos que necessitaremos de viver. Entre o desejável e o possível. Entre o “Sonho” e a “Realização”. Pelo meio… a turbulência das diferentes emoções e experiências que mais não são do que “professoras”.

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