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Bohemian Rhapsody: Será Isto Vida Real, Ou Será Só Fantasia? (Review)

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Já ouviu falar de uma “pequena” banda chamada Queen? A banda responsável pela criação de géneros inteiros de música e pela evolução do rock em geral? Se não conhece, não valerá a pena ver Bohemian Rhapsody, mas se é conhecedor de pelo menos uma fracção da vasta discografia, vai estar perante uma viagem imensamente condensada ao universo da banda britânica, que pode induzir em erro para quem quer rigidez cronológica, mas que certamente não deixará ninguém indiferente….

 

 

Título Original: Bohemian Rhapsody

Ano: 2018

Realizador: Bryan Singer

Cinematografia: Newton Thomas Sigel

Produção: Jim Beach, Graham King,  Brian May, Roger Taylor

Argumento: Anthony McCarten, Peter Morgan, Anthony McCarten

Actores: Rami Malek, Lucy Boynton, Gwilym Lee, Ben Hardy, Joseph Mazzello

Género: Biografia, Drama, Musica

Ficha Técnica Completa

 

 

 

Vamos já pôr algumas duvidas para fora da equação. Eu nasci quase um ano depois de Freddie Mercury morrer, mas há uma memória de que não me esqueço. Em 1995, só tenho ideia de existir uma música a passar na rádio. Essa música, Made in Heaven, dava nome ao último álbum produzido com material vocal de Mercury, e foi o meu primeiro contacto com a banda, já para não falar que é a primeira musica que me lembro de ouvir. Cresci com a influência desta banda e nas minhas “viagens no tempo” descobri a grande mestria da banda britânica com álbuns como Queen II ou Night at the Opera. Posso ser em todos os aspectos musicais um metalhead mas seria impossível não reconhecer os inícios do thrash metal em Stone Cold Crazy, ou do power metal em The Prophet’s Song. Estranho ver a banda que revolucionou o rock a ser precursora de géneros e composições mais pesados, mas é impossível não reconhecer Gimme the Prize (Kurgan’s Theme) ou Innuendo. Mesmo completamente influenciado pelo facto desta ser uma das minhas bandas favoritas, assisti inclusive ao recente concerto dos Queen com Adam Lambert este ano na Altice Arena, em nada influencia a minha opinião sobre Bohemian Rhapsody. 

Bohemian Rhapsody pode parecer um filme sobre a banda Queen, mas o protagonista da narrativa em última instância está escolhido deste o primeiro minuto. Maior do que a vida e, mesmo assim tão humano nas suas fragilidades e erros, Freddie Mercury (Rami Malek) mantém-se como figura no pódio e tudo o resto circula à sua volta, enquanto inúmeras sequências e momentos históricos para a banda são adulterados e reorganizados, muitas vezes sem explicação lógica e, noutros numa necessidade de não comprometer uma história que se avizinha trágica, mesmo que o filme comece e acabe na nota positiva que foi o poderoso concerto do Live Aid em 1985, no Estádio de Wembley. Para os que procuram sangue e os momentos menos bons com a derradeira batalha de Mercury contra a SIDA, não encontraram aqui muito conteúdo. Para quem quer uma análise à verdadeira mestria por detrás da banda, encontrará algumas menções ao processo criativo, mas nunca de forma completamente balizada. Os álbuns são praticamente irrelevantes, apenas Night At the Opera tem realmente destaque por ter no seu alinhamento a música que dá titulo ao filme. Note-se que esta é apenas uma tentativa de explicar o que poderão encontrar e não uma critica à sua fórmula, embora a sua natureza episódica nem sempre funcione a seu favor.

Bohemian Rhapsody tentou algo diferente, numa narrativa coesa e com ritmo, mesmo que com isso tenha eventualmente deturpado a realidade e passado por cima de momentos importantes. Os membros da banda não se conheceram daquela maneira e de forma tão facilitada, Freddie não mudou de look para a sua bigodaça retro em 1980 e, o seu diagnostico de SIDA não aconteceu antes de 1986. Algumas desta mudanças têm sentido, o filme não tinha tempo para se debruçar na complexidade e na sorte que juntou os quatro músicos, e puxar o diagnóstico para 1985 faria com que o filme ignorasse a doença que o atormentou até ao fim. A falta de uma cronologia fidedigna não arruína o filme e, não é possível ignorar um trabalho de câmara fantástico, com a reprodução quase fidedigna ao nível visual das performances da banda e passagens de cena muito bem conseguidas, que ajudam a encher os espaços cronológicos que foram apressados para o bem das duas horas permitidas. No entanto, essa pressa ritmada é também o inimigo do filme. Há coesão, mas por vezes isso traz um vazio existencial, como se essas pequenas sequências fossem uma tentativa falhada de enganar a audiência simplificando períodos da banda que não foram em nada simples.

TM & © 2018 Twentieth Century Fox Film Corporation.

No meio das sequências da banda, a vida de Mercury dá voltas de 180 graus e o filme não esconde a sua sexualidade e a sua descoberta da mesma. Algumas críticas interpretaram que o filme é homofóbico por parecer associar a doença que vitimou o vocalista à sua sexualidade e à sua vida boémia. Na realidade, esta é uma interpretação maquiavélica, que procura desvalorizar o filme, por falta de compreensão do mesmo.  O filme não aponta o dedo a ninguém como culpado e muito menos a Mercury. É verdade que parece cair sobre o o manager e parceiro de Freddie a carta de vilão. Paul Prenter (Allen Leech) interfere com a banda e parece querer afastar o vocalista da sua família musical. Mesmo assim, nunca é induzida qualquer culpa pela doença, e a relação entre ambos é tratada com o respeito que ambas as figuras merecem. Afinal de contas parece que Prenter não era de facto flor que se cheire e foi altamente negativo na vida do artista. O filme é também o desmistificar da figura, mostrando um homem que mesmo sendo uma lenda de palco está susceptível a influência externa como qualquer humano e, capaz de ser injusto e egocêntrico quando a pressão aperta. O lado humano faz todo o sentido e não destrói a imagem que a audiência tem de Mercury, apenas completa essa imagem de forma mais íntima, sem ser excessivamente intrusivo.

Mesmo com as particularidades estruturais há sem duvida um factor incomparável. Destaca-se a performance dos quatro actores que representam a banda. Rami Malek consegue confundir qualquer noção de que é apenas um actor a representar Freddie, e não Mercury em carne e osso. Sem dúvida um dos possíveis merecedores de Oscar, que necessitará de concorrência à altura. E, sendo que o filme gira mais em torno da persona do que da banda, é fácil esquecer que Gwilym Lee é um Brian May ao mesmo nível de Malek para Mercury. Ben Hardy  distancia-se por ser o actor menos semelhante ao seu homónimo real, Roger Taylor. Joseph Mazzello, é o que menos presença tem como John Deacon em termos de diálogo, mas nos silêncios e momentos importantes imita na perfeição a personalidade mais acanhada do baixista.

Bohemian Rhapsody escolheu um modelo de narrativa, que embora não esqueça a banda, se debruça numa análise mais profunda a Freddie Mercury. É uma análise musical breve, com alguns êxitos para encher os cinemas de boa música, culminando com uma representação fidedigna do concerto do Live Aid 1985, resumindo o resto da vida do vocalista a uma meia dúzia de linhas, acabando assim em nota positiva. Será esta estrutura criticável como decisão artística? Não, porque a execução e o modelo escolhido funcionam. Um filme pode não mostrar o que queremos realmente ver, mas mesmo assim concretizar com um resultado final coeso. Bohemian Rhapsody é esse mesmo resultado, recheado de boas performances e com o grande contributo de Rami Malek. É uma obra-prima cinematográfica? Não, mas dá o suficiente para encantar os fãs da música da banda britânica porque é claramente um filme para eles, mesmo que a espada de dois gumes possa fazer com que saibam apontar todos os erros cronológicos, e que isso leve a odiar o filme na sua totalidade. Em conclusão, amor ou ódio, os Queen estão vivos e a sua música perdura, com ou sem Bohemian Rhapsody, mas nunca sem a música original que lhe dá nome. Any way the wind blows

7.5

Voltarei em breve com mais cinema….

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