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As Músicas do 25 de Abril

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E cá estou eu outra vez. Passou pouco tempo desde a crónica do mês passado, não é? Pois bem, tenho uma novidade para lhe dar. Talvez já tenha reparado que o Magazine Mais Opinião mudou de nome: passou a chamar-se Ideias e Opiniões! Mas o que muda é apenas o nome. O conteúdo mantém-se e a qualidade também.

Bom, depois da novidade vamos à crónica. Já passaram três meses de 2015, como o tempo passa não é verdade? Em Março celebrou-se mais um Dia do Pai e o Dia da Mulher. E em Abril, o que importa é que neste mês se festejam os 41 anos da Revolução dos Cravos. No dia 25 de Abril, celebram-se este ano 41 anos de várias conquistas, sendo uma das mais importantes, as primeiras eleições livres e democráticas. Então nada fazia mais sentido neste mês do que seguir esta temática do 25 de Abril, como tal, irei abordar nesta crónica, a “Grândola, Vila Morena” de Zeca Afonso e a “Tourada”, de Fernando Tordo. Duas canções emblemáticas do período do Estado Novo e que marcaram o protesto das condições do país nessa altura.

cravo

Comecemos pela “Grândola, Vila Morena”. Esta foi uma das músicas da Revolução, afinal foi a contra-senha emitida já no dia 25 de Abril de 1974. A música que mais se associa à Revolução foi escrita pelo próprio cantor, Zeca Afonso, no dia 17 de Maio de 1964. Contudo, foi apenas gravada em 1971, em França e integrou o álbum Cantigas do Maio.

Nesta canção pode-se ouvir logo no início, passos, durante bastante tempo. Estes passos não são de militares. Segundo Francisco Fanhais, que esteve envolvido na gravação desta canção, juntamente com José Mário Branco, e o próprio autor e cantor, Zeca Afonso, “aqueles passos que se ouvem no início não são de soldados”, disse Fanhais à revista Blitz, o ano passado. Estes passos “foram captados em estúdio numa espécie de encenação do tipo de ambiente criado pelos grupos corais alentejanos. Foi esse o ambiente que o Zé Mário quis reproduzir” afirmou.

 

cantigas do maio

Capa do álbum Cantigas de Maio

O álbum Cantigas do Maio foi gravado no Chateau d’Hérouville (Castelo de Hérouville) que foi transformado em estúdio no século XX, por Michel Magne, compositor que foi nomeado para um Óscar da Academia. Neste estúdio onde foi gravada a Grândola em 1971, foram também gravados outros álbuns de artistas importantes na música internacional. Por exemplo em 1977, foram gravados dois temas do “Saturday Night Fever”, disco dos Bee Gees. E foram nada mais, nada menos que “Staying Alive” e “How Deep is Your Love”. Também David Bowie, Iggy Pop, Pink Floyd ou Cat Stevens gravaram neste estúdio. De referir ainda que Elton John gravou três discos, sendo um deles o “Goodbye Yellow Brick Road”.

 

Pink Floyd gravam no Château d’Herouville

Pink Floyd no Estúdio do Castelo Hérouville

chateau-large

Castelo de Hérouville

Mas voltemos à canção. A “Grândola” foi cantada numa das primeiras vezes num espectáculo no Coliseu de Lisboa, nos finais de Março de 1974. Nesse espectáculo estavam vários militares, que depois integraram o Movimento das Forças Armadas. Mas o mais curioso de tudo é que nesse espectáculo houve várias canções de Zeca Afonso, que não foram permitidas pela censura, na altura denominada de Exame Prévio. Porém, a “Grândola” não foi uma dessas. Talvez não tenham compreendido a letra.

Zeca 25

Biografia:
José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, mais conhecido por Zeca Afonso, nasceu no dia 2 de Agosto de 1929, na cidade de Aveiro. O seu pai era juiz e a sua mãe era professora primária. Faleceu no dia 23 de Fevereiro de 1987, vítima de esclerose lateral amiotrófica, no Hospital de Setúbal. Estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, que viria a acabar em 1963. Foi professor, mas foi proibido de exercer a carreira docente pelo Estado. Teve dois filhos. Fez várias colaborações com artistas de nomeada como Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco, Vitorino, Sérgio Godinho, Rão Kyao, Fausto ou Janita Salomé. Recusou um convite do Partido Comunista para ser militante. Recusou ser condecorado por Ramalho Eanes e a sua mulher recusou a condecoração póstuma de Mário Soares. Apoiou dois candidatos às presidenciais: Otelo Saraiva de Carvalho e Maria de Lurdes Pintassilgo. Foi um dos maiores nomes da música portuguesa do século XX.

Zeca afonso

José Afonso

Letra: 

Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade

Dentro de ti, ó cidade
O povo é quem mais ordena
Terra da fraternidade
Grândola, vila morena

Em cada esquina um amigo
Em cada rosto igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade

Terra da fraternidade
Grândola, vila morena
Em cada rosto igualdade
O povo é quem mais ordena

À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade
Jurei ter por companheira
Grândola à tua vontade

Grândola à tua vontade
Jurei ter por companheira
À sombra duma azinheira
Que já não sabia a idade

Grandola graffitti

Análise:
Bom, desde já, é necessário reparar na repetição do último verso das estrofes, no primeiro verso de várias estrofes. Mas, passando a análise das frases da letra da canção, logo no início, está exposta uma frase bastante polémica para a época. “O povo é quem mais ordena”. Depois, na minha opinião, há sobretudo uma frase chave nesta canção. É a parte em que se canta “Em cada rosto igualdade”. Falar de igualdade em pleno Estado Novo era, no mínimo, arriscado dada a disparidade que existia, tanto a nível social, como a nível económico.

Louvo imenso a postura de Zeca Afonso que, ao cantar esta canção, tentava expor a realidade do país aos olhos de quem via a situação nacional.

 

Ary dos Santos

Ary dos Santos

Passemos agora a outra cantiga. A Tourada de Ary dos Santos, interpretada por Fernando Tordo no Festival da Canção de 1973 e representante portuguesa na Eurovisão, do mesmo ano. Esta foi mais uma canção que passou no Exame Prévio. Mais um caso em que a letra não terá sido entendida na sua totalidade. Não perceberam a letra, mas neste caso também não foi percebida a ironia de Ary dos Santos subentendida na mesma. A letra visava a crítica ao regime político português e uma crítica à sociedade.

Tordo

Fernando Tordo

Biografia:
Fernando Tordo é um reconhecido cantor e compositor português, nascido a 29 de Março de 1948. Cantou por várias vezes canções de Ary dos Santos, como foi o caso de “A Tourada”, mas também compôs “Cavalo à Solta”, “Estrela da Tarde” e “Lisboa, Menina e Moça”, duas cantigas que Carlos do Carmo popularizou. Iniciou a sua carreira musical aos 16 anos na banda os Sheiks Gravou em 1994 um álbum nos estúdios de Abbey Road. Eternizou a frase que se ouve mais nas manifestações com “Portugal Ressuscitado”, com o verso “Agora/ o povo unido/ nunca mais será vencido”. Participou e venceu vários prémios de música em vários festivais de todo o país. Editou mais de 20 álbuns, na sua maioria LP’s. É uma das grandes referências do panorama musical português.

Letra:

Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras,
toureamos ombro a ombro
as feras.

Ninguém nos leva ao engano,
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
esperas.

Entram guizos chocas e capotes
e mantilhas pretas,
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas,
entram bravos cravos e dichotes,
porque tudo o mais
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados
que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos,
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

Com bandarilhas de esperança
afugentamos a fera,
estamos na praça
da Primavera.
Nós vamos pegar o mundo
pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza,
graça.

Entram velhas doidas e turistas,
entram excursões,
entram benefícios e cronistas,
entram aldrabões,
entram marialvas e coristas,
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa
do seu heroísmo,
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca,
mais o snobismo
e cismo…

Entram empresários moralistas,
entram frustrações,
entram antiquários e fadistas,
e contradições,

E entra muito dólar, muita gente,
que dá lucro as milhões.
E diz o inteligente,
que acabaram as canções.

Análise:
A canção de Fernando Tordo tem como já referi uma enorme ironia na sua letra. A ideia era expor a situação social do país e criticar o snobismo. Tem também uma crítica política quando Tordo canta “Com bandarilhas de esperança/afugentamos a fera/estamos na praça/da Primavera”, faz uma alusão à primavera marcelista. Mas os últimos dois versos também são, a meu ver, uma crítica a Marcello Caetano. Igualmente é a ironia que prevalece nesses mesmos versos, dado que ele está a cantar uma canção que é fundamentalmente irónica.

Até ao mês que vem!

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