Conto

Uma Ameaça de Bomba na Ponte 25 de Abril…

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O som estridente do despertador obrigou António a interromper o seu sonho. O sonho tinha sido tudo menos normal. Sonhara que era um bombista suicida, e que estava prestes a cometer um atentado em plena capital portuguesa, quando foi interrompido pelo horrível barulho do despertador que a sua esposa lhe tinha oferecido no Natal passado. António odiava aquele despertador. E sempre que era despertado por ele, sentia que odiava cada vez mais a sua própria mulher.

António abriu os olhos, calou o despertador com uma pancada violenta, e antes de olhar para o lado, já a sua mulher resmungava-lhe ao ouvido para que se levantasse da cama, porque se não o fizesse, provavelmente iria chegar uma vez mais atrasado a um julgamento. E naquele dia, António não se podia dar ao luxo de falhar. Lutara dois anos contra tudo e contra todos, para que aquele julgamento acontecesse.

Em menos de meia-hora, já António estava despachado e pronto a sair de casa, mas antes de o fazer, passou pelo quarto para deixar um beijo à sua mulher, apesar de não ter nenhuma vontade de o fazer — mas os seus pais tinham-lhe ensinado que, apesar de existirem fases menos boas na vida de um casal, o amor estava sempre lá. Tinha era de ser relembrado todos os dias. Abeirou-se da cama e, antes de se aproximar da cara da sua esposa, já ela se tinha virado para o lado, resmungando algo imperceptível aos ouvidos de António, que lhe deixara uma certeza: ela não estava com apetites para beijos ou para o quer que fosse. Então, António não forçou e retirou-se de casa num ápice.

Chegou ao tribunal de Almada eram sensivelmente 10 horas da manhã. O julgamento estava marcado para as 11 horas, mas António quis chegar mais cedo para rever algumas questões do processo. Na verdade, António sabia que não precisaria de muito esforço para conseguir condenar aquele pedófilo e assassino. E ele tinha um bom trunfo na mão: uma testemunha que tinha assistido à violação e assassinato da criança de apenas 9 anos. Sempre que se recordava disso, António sentia o sabor amargo da bílis que lhe subia à boca. Como era possível alguém conseguir cometer algo tão deplorável, bizarro ou até absurdo, sem sequer sentir remorsos por isso.

Eram sensivelmente 10 horas e 50 minutos, quando António se dirigiu para a porta da sala de audiência e, assim que se preparava para entrar na sala, eis que alguém lhe segurou no cotovelo, puxando-o para o lado.

— Doutor… Surgiu um imprevisto. — sussurrou-lhe ao ouvido, a sua assistente. A sua expressão assustada, deixou-o imediatamente preocupado.

— O que se passa, Isabel? — perguntou António, com um claro receio de saber o que aí vinha.

— Doutor… Soube agora que… a nossa testemunha vital, não poderá vir ao julgamento.

— Hum?! — António entendeu imediatamente que não se tratava de coisa boa, mas mesmo assim prosseguiu — O que se passou com ela? Está doente? Teve algum problema com o carro?

— Ela… hum… Ela morreu, doutor!

Um calafrio percorreu a espinha de António. Ele percebera instantaneamente que o caso poderia estar perdido. Não quis saber mais pormenores, e entrou na sala de audiência com os ombros descaídos e cabeça baixa. Depois de dois anos a preparar aquela testemunha para aquele dia, de um momento para o outro a testemunha desaparecera, e ele tinha de se tentar desenvencilhar sozinho. Mas não perdera a esperança, pois de certeza que iria conseguir condenar aquele animal.

***

António não queria acreditar no que tinha acabado de acontecer. Estava sentado ao balcão do bar em frente ao tribunal, com um copo de whisky a preencher-lhe a visão, e não conseguia parar de pensar nas palavras da juíza, ao declarar o veredicto: “Por falta de provas, declaro o arguido… inocente!” Como é que aquilo podia estar a acontecer em pleno século XXI? Como é que um energúmeno, ou melhor, um assassino, podia ter cometido uma barbaridade daquelas, e continuar em liberdade? A sensação que tinha era que o mundo lhe tinha acabado de fugir debaixo dos pés.

Ficara o resto da manhã no bar, a beber whisky e a lamentar-se por não ter conseguido condenar um pedófilo assassino. E pior que isso, eram as palavras da mãe da menina assassinada, a acusá-lo de ser um mau advogado de acusação, que não lhe saiam da cabeça. Ele sabia que não o era, mas aquelas palavras picavam-lhe o coração como se alguém o tivesse a apunhar com um picador de gelo.

A muito custo, lá conseguiu abandonar o bar, e dirigir-se para casa. Apesar de o seu casamento não estar a viver momentos harmoniosos, ele sabia que podia encontrar algum tipo de conforto junto da sua esposa. Podia chegar a casa, tomar um bom banho na companhia da esposa, e podiam sair para almoçar no restaurante em que habitualmente o faziam, sem antes enrolarem-se os dois debaixo dos lençóis da cama, e acabar por terem de tomar banho juntos, novamente. Parecia-lhe um bom plano e, subitamente, o mundo já não parecera assim tão mau quanto isso.

António chegou a casa, e apressou-se a correr para o quarto, onde teria a certeza que estaria a sua mulher, para lhe contar o desfecho do julgamento, e dizer-lhe que precisava dela mais do que nunca. Sentia-se destroçado por dentro, mas a imagem de ele e a sua cara-metade juntos no banho, conseguiu animá-lo um pouco.

Estranhou o facto de ela não se encontrar na cama, visto que ela nunca se levantava assim tão cedo. Provavelmente, estaria na casa-de-banho ou mesmo a tomar um banho refrescante, e a ideia pareceu excitá-lo um pouco. Procurou por ela na casa-de-banho, mas ela não estava lá. Estranho. Chamou por ela, mas não obteve resposta, até que escutou barulhos vindos da cozinha.

“Ah! Está a fazer o pequeno-almoço.”, pensou António.

Correu para a cozinha, ainda ligeiramente excitado com a imagem dos dois a tomarem banho juntos, e estagnou de forma abrupta à porta da cozinha, analisando o cenário inesperado que acabara de presenciar.

A sua mulher estava sentada em cima do balcão da cozinha, completamente nua. Mas, não estava sozinha. Em frente a ela estava um homem, igualmente nu, de costas para ele, que penetrava-a violentamente. De tal forma que os talheres e panelas que estavam em cima do balcão iam caindo para o chão. António olhou para a mulher e, pela primeira vez, viu na sua cara uma expressão que nunca tinha visto antes — ela estava realmente a sentir prazer naquilo. Algo que, pelos vistos, nunca tinha sentido com ele. Não daquela maneira.

— Querida… — Fora a única coisa que conseguiu dizer, antes de sair disparado da cozinha em direcção à rua, com o sabor salgado das lágrimas que lhe escorriam pela cara, a tomar conta da sua boca. Não reparou sequer se a sua mulher e amante o tinham ouvido ou visto, pois a sua preocupação era apenas a de sair rapidamente dali.

Sem saber bem como, António deu por si a entrar novamente no bar — que ficava em frente ao tribunal — e voltar a sentar-se ao balcão. O empregado assim que o viu, apercebeu-se de que algo não estava bem, e apressou-se a colocar um copo e uma garrafa de whisky à frente de António, e disse:

— Esta é por conta da casa…

António não respondeu. Limitou-se a encher o copo, e deixou-se ficar por ali, absorto pelos seus pensamentos e pela companhia da garrafa de whisky. “Primeiro aquele sacana do pedófilo que se safou! E depois a minha mulher… Como foi possível, isto? Como é que o meu mundo acabou assim, de um momento para o outro?! Se isto fosse no tempo do Salazar, isto não teria acontecido! Aquele pedófilo já estaria morto e enterrado, e a minha mulher… Bem, ela não se atreveria a fazer algo assim…”, pensou António.

Pegou no copo de whisky e levou-o à boca pela centésima vez naquela tarde, engolindo o líquido sem respirar. Apressou-se a voltar a encher o copo, sem reparar que, na verdade, a garrafa já estava vazia. E continuou nos seus pensamentos…

“Eu tenho de fazer algo. Eu não posso deixar isto acontecer e ficar de braços cruzados! Mas eu sou um homem ou um rato, caramba?!”, voltou a pensar enquanto levava uma vez mais o copo à boca, e engolia apenas ar.

E foi nesse instante que se fez luz na sua cabeça. O amante da sua mulher… Ele agora percebera de quem se tratava. Era um simples motorista, que costumava fazer uns servicinhos para o tribunal. Como é que ele e a sua mulher se tinham conhecido, é que era um mistério para António. Mas isso não importava, pois ele já tinha um plano em marcha.

A juíza que soltou o pedófilo, costumava atravessar a Ponte 25 de Abril ao fim do dia, quando regressava a casa. Bastava arranjar forma de o seu carro avariar, e conseguir que o amante da sua mulher fosse chamado para levar a juíza a casa. Tão fácil. Depois só tinha de arranjar forma de os eliminar, sem ser detectado. Olhou por momentos para a televisão do bar, e reparou na notícia de última hora que preenchia o pequeno rectângulo: “Notícia de última hora! Um ataque bombista dizimou uma escola no Afeganistão!”

— Uma bomba! É isso! — exclamou bem alto, António, levando a que todas pessoas que estavam no bar ficassem de boca aberta a olhar para ele. Retirou uma nota da carteira, e deixou-a em cima do balcão, para pagar a garrafa de whisky, e saiu disparado para a rua.

Fez dois telefonemas, que o ajudariam a elaborar o plano que tinha em mente. Primeiro, falou com um ex-cliente, que era mecânico e que lhe devia um favor. Quanto ao carro da juíza, o assunto estava tratado. Depois falou com um amigo de infância que trabalhava no tribunal, e disse-lhe que o carro da juíza estaria com problemas, e que ela precisaria de requisitar o serviço do motorista privado do tribunal para a levar a casa. Despachado que estava esse assunto, só faltava tratar do mais importante: fabricar a bomba…

António ainda pensou fazer uma visita a um recluso especialista no fabrico de bombas, que outrora tinha sido seu cliente, mas sabia que, para fabricar uma bomba, bastava apenas pesquisar na internet. Passou o resto da tarde a pesquisar e a aprender como fazer uma bomba caseira, e deslocou-se a várias lojas de material pirotécnico para comprar todos os utensílios de que iria precisar. Ficou por um lado agradecido pelo facto de ser tão fácil aprender a fabricar uma bomba, mas por outro assustado com essa mesma facilidade nos tempos que correm.

A juíza costumava sair do tribunal por volta das 18 horas. Então, António só precisava de deixar a bomba na Ponte 25 de Abril, pronta a explodir por volta das 18 horas e 20 minutos — que era o tempo que se levava do tribunal à ponte, em hora de ponta.

António teve o cuidado de, para além do saco com a bomba, comprar um outro saco igual e fazer um embrulho idêntico, mas contendo apenas parafusos e porcas, para no caso de ser apanhado numa Operação Stop da Brigada de Trânsito (que eram bastante frequentes à entrada da ponte), poder mostrar aquele saco em vez do que continha a bomba.

Entrou no carro, e antes de colocar os dois sacos debaixo do banco, teve o cuidado de colocar a hora certa no pequeno cronómetro da bomba, para que ela explodisse à hora pretendida — às 18 horas e 20 minutos. Fez-se à estrada e, minutos depois entrou na ponte, suspirando de alívio por não ter encontrado nenhuma Operação Stop. Assim que chegou a meio da ponte, o seu coração palpitava violentamente no seu peito, e o suor escorria-lhe pela cara abaixo. Sentia uma mescla de sentimentos a absorvê-lo intensamente; nervosismo, ansiedade, alegria, tristeza, etc.

Olhou para o retrovisor e reparou que não vinha nenhum carro atrás de si. Então, num movimento brusco e repentino, parou o carro no meio da ponte, agarrou no saco que estava por baixo do banco, abriu a porta do carro e colocou o saco no chão, junto ao pilar norte da Ponte 25 de Abril. Voltou rapidamente para o carro, fechou a porta e arrancou disparado em direcção a casa. O seu coração continuava a palpitar de forma brusca no seu peito, mas sentia que estava apenas a um passo de completar a sua vingança.

Estacionou o carro em frente à porta de casa, e ficou dentro do carro durante 10 segundos, inspirando e expirando, na tentativa de se acalmar. Quando ficou mais calmo, colocou um sorriso na cara, e saiu do carro e entrou em casa, procurando pela mulher.

— Querida, chegueeeeiiii! — disse.

— Olá mor, como foi o teu dia? — respondeu a mulher, conseguindo esconder muito bem o encontro sexual que tinha tido naquele dia. António percebeu que ela não tinha dado por ele à hora de almoço. E ainda bem, porque assim o seu plano ainda iria resultar melhor…

— Ah… correu bem. Dentro do normal.

— E o julgamento?

— Ah, isso… O gajo safou-se. Enfim, é a justiça que temos… Anda, vem sentar-te aqui ao meu lado no sofá. Quero que vejas uma coisa.

António ligou a televisão, mas nada de relevante se passava nos noticiários. Olhou para o relógio que tinha no pulso, e constatou que faltava apenas 1 minuto para as 18 horas e 20 minutos. “Isto vai ser espectacular! É o que se chama matar dois coelhos com uma cajadada! Ah, ah, ah!”, pensou António.

A sua mulher sentou-se ao seu lado no sofá e, nesse preciso instante, um som ensurdecedor surgiu, trazendo consigo um impacto que fez com que António e a sua mulher fossem projectados contra uma das paredes da sala. Quando António voltou a si, estava ainda ligeiramente surdo. Constatou que faltava uma parede da sua casa — a que estava virada para a rua — e que o seu carro tinha desaparecido. Olhou para o relógio, e exclamou:

— 18 horas e 20 minutos… Bolas, tinha que me enganar no raisparta do saco!!

FIM

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