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A Vida por Trás das Estantes: Ser Bibliotecário

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No outro dia, ao vaguear pela Internet, dei de caras com um artigo muito pouco inspirado que falava das “profissões bem pagas que nunca pensou em ter”. Logo nas primeiras, vinha o bibliotecário.

Ri-me, francamente, a bom rir. Primeiro porque não só pensei em ser, como sou. E depois porque o bem pago, bem…

Mas vamos começar do início. Afinal, que história é esta de ser bibliotecário?

Um bibliotecário é, claro está, uma pessoa que trabalha em bibliotecas. Reza a lenda, que de lenda não passa, que passamos a vida a limpar o pó aos livros, a olhar para as estantes e a mandar calar os meninos barulhentos que se atrevem a fazer um qualquer sonzinho dentro daquele edifício austero e solene que é uma biblioteca.

Mas na verdade, não é nada disso que se trata.

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A biblioteca é um sítio vivo. Primeiro que tudo, tem os livros, que qualquer leitor saberá que são o melhor meio de transporte que existe. Um livro, só por si, já é quase uma entidade viva, com uma personalidade individual e vincada. Levam-nos para lugares distantes, dão-nos a conhecer mundos que nunca pensámos, ensinam-nos a pensar e a ver a realidade de diferentes perspectivas.

Mas, tenho cá para mim, que os livros nem sequer são a parte mais importante de uma biblioteca. Porque, pasmem-se os leitores, já há bibliotecas sem livros! São as chamadas bibliotecas humanas…

A parte mais importante de uma biblioteca são, digo eu no que isso vale, as pessoas. As pessoas que lá trabalham, as que lá vão mais ou menos frequentemente e, por vezes, até mesmo aquelas que dão só uma espreitadela. Porque pode haver bibliotecas sem livros, mas uma biblioteca sem pessoas é uma coisa morta.

História

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A primeira biblioteca do mundo de que se tem conhecimento foi erguida em Ninive (actual Iraque), no século VII a.C., ainda antes dos livros verem a luz do dia. A sua colecção era constituída por tabuletas! Em Portugal, a mais antiga é a de Évora, fundada por Frei Manuel do Cenáculo há mais de dois séculos.

No início, as bibliotecas eram uma coisa para as elites. Só os nobres e ricos eram suficientemente alfabetizados para ler livros e só eles tinham dinheiro para os comprar. Afinal, também não existia a produção em massa dos dias de hoje…

Aos poucos o acesso foi-se espalhando, começando pelas camadas mais altas da sociedade, pelos mais ricos e estudados, até que, nos dias de hoje, qualquer pessoa independentemente da classe social e de qualquer outra coisa tem (idealmente) acesso a elas. Mas nem só de história vivem as bibliotecas…

Livros, colecções e circuito documental

Existem muitos tipos de bibliotecas, para muitos tipos de utilizações. Há as universitárias, onde encontramos sobretudo estudantes mais ou menos estudiosos, investigadores e professores; as especializadas, como as bibliotecas de arte por exemplo; as escolares, provavelmente o género menos silencioso de todos; as bibliotecas comunitárias, criadas e mantidas por uma comunidade sem ligação ao Estado; as bibliotecas públicas e municipais, que atendem a um público mais generalista;  entre outras…

O que se pode encontrar numa biblioteca? Antes de mais, claro está, documentos. E se dizemos documentos e não livros, não é ao calhas, caro leitor. É porque nas bibliotecas tanto pode haver documentos em formato livro, como revistas (os chamados periódicos), DVD’s, CD’s, manuscritos… tudo depende da biblioteca e da sua colecção, que é sempre única só por si. Não há, garanto, duas bibliotecas que tenham exactamente os mesmos documentos!

Há três formas principais de um documento dar entrada numa biblioteca. A primeira, e mais comum, é a compra. A maioria das bibliotecas tem de comprar os livros que quer ter na estante, com orçamentos previamente planeados, escolhendo aqueles que acha que mais interesse têm para o seu público, em específico.

A segunda são as doacções. Muitas pessoas por falta de espaço, morte de familiares e outras coisas doam, por vezes bibliotecas pessoais inteiras, às bibliotecas. Por vezes, isso é bom, outras não tanto. Um livro para entrar nas prateleiras da biblioteca e ter interesse para os leitores tem de corresponder a alguns critérios mínimos: ser actual (um livro de medicina de há 50 anos atrás, se calhar, não é o melhor livro para ajudar a formar os nossos médicos, certo?); estar em bom estado (quem vai a uma biblioteca a querer requisitar um livro todo amarelado e com as páginas rasgadas, descoladas ou riscadas? Ninguém!); e tem de ser pertinente (se já existirem mais 8 exemplares daquele documento, será que faz sentido ficar com mais um só a ocupar espaço?).

 


A terceira opção, a que só algumas bibliotecas têm acesso, é o depósito legal. O depósito legal surgiu em França em 1537 e chegou a Portugal em 1798. Define que determinadas bibliotecas recebem tudo o que se publica no nosso país, de forma a terem uma colecção completa e poderem assim disponibilizá-la totalmente ao seu público. Em Portugal, são 11 as bibliotecas contempladas: a Biblioteca Nacional (que recebe 2 exemplares), a Biblioteca Pública de Évora,  a Biblioteca Pública de Braga, a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, a Biblioteca Municipal de Coimbra, a Biblioteca Municipal de Lisboa e a Biblioteca Pública Municipal do Porto, as Bibliotecas do Funchal e de Angra do Heroísmo e a Biblioteca do Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro.

O que acontece quando um documento entra numa biblioteca? Ele entra no chamado “circuito documental”. Todos os documentos são registados quando entram, carimbados e, depois, catalogados (são inseridos no catálogo da biblioteca). É feita, ainda, a indexação, que é aquilo que permite a qualquer um de nós fazer uma pesquisa por tema e encontrar os livros sobre esse tema. É-lhes atribuído um lugar nas estantes, normalmente através da atribuição de uma cota, a cota é impressa e colocada na lombada do livro que, depois, é arrumado.

 

O Dia a Dia numa Biblioteca

Quem não é um frequentador assíduo das bibliotecas pode achar que é um local muito parado, mas isso não é verdade. Nas bibliotecas há sempre livros a entrar e a sair, a serem catalogados e a serem emprestados. Há crianças aos pulos, a correr para as actividades, famílias inteiras que vêm juntas. Há aulas de informática, há histórias a serem contadas, quer a crianças, quer a adultos. Há serões de poesia, concursos, dança, música, teatro, noitadas. E os livros viajam! Vão de uma biblioteca para outra, vão às escolas, aos jardins de infância, às praias…

É claro que, também, há dias calmos, serenos, só de silêncio e leituras, mas esses são poucos. Porque normalmente, há sempre alguma coisa a acontecer.

Um dos melhores textos que li enquanto me formava bibliotecária, referia que a biblioteca devia ser idealmente um “terceiro lugar”. Ou seja, o terceiro lugar onde as pessoas vão, logo a seguir à casa e ao emprego/escola.

E, de facto, é o que acontece muitas vezes. A biblioteca é um lugar de estudo, de aprendizagem, de leituras. Mas é também um lugar de actividades para crianças e adultos. As pessoas vêm em grupos grandes, em grupos de pequenos ou aos pares. E, muitas vezes, vêm sozinhas. Muitas vezes a biblioteca é, além de tudo o que já falamos, um ponto de encontro. Para muitos, é o principal sítio para combater a solidão. O único.

Outras vezes ela é como uma ilha no meio de um mar de desgraças. Lá, pelo menos, por um curto espaço de tempo, as pessoas podem esquecer um pouco os problemas e mergulhar noutros mundos. Lá não importa se se tem pouco ou muito dinheiro, porque tudo está ao acesso de todos. A informação. E é a informação que começa por mudar a sociedade.

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