Música

A Luz e Sombra de Ariana Grande em “Sweetener”

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Estávamos ainda em 2016 quando as primeiras notícias do álbum nº4 de Ariana Grande começaram a circular. À data, “Side to Side” causava abalos nas tabelas e o deslumbramento incessante por Dangerous Woman impedia sequer que algum tipo de entusiasmo pairasse no ar. Demasiado cedo, demasiado apressado e totalmente inesperado para ser uma possibilidade.

Até que os fatídicos acontecimentos de Manchester ocorrem em Maio de 2017 – vinte e três dos seus fãs perderam a vida num atentado terrorista e mais de quinhentos ficaram feridos – e o projecto não só é reestruturado e abranda, como adquire toda uma outra dimensão. Ariana Grande lida com o rescaldo da situação de forma notável, encabeçando um gigantesco concerto de beneficência que funcionou como pontapé no ódio e a tornou numa espécie de heroína nacional. Mas o episódio deixaria marcas profundas.

Muito corajosamente, Ariana Grande ainda conseguiu terminar os concertos da digressão de suporte ao álbum, suspensa durante as semanas que se seguiram, mas reduziu a sua presença na esfera pública a zero, evadindo-se assim que a agenda permitiu. Enquanto isso, todas as emoções evocadas pelo trauma eram canalizadas no processo criativo do novo álbum.

O silêncio seria quebrado em Abril último, quando “No Tears Left to Cry” dava o mote à era vindoura de Sweetener. Uma desafiante construção Dance Pop de batida garage erguida como monumento ao atentado, diluída na cadência emocional de “One Last Time” e na brisa fortalecedora de “Break Free”, sobre dar a volta por cima e perseverar perante a adversidade.

E se esse é o evento catalisador de Sweetener, não poderemos também descurar a importância de Pharrell Williams na atribuição de uma identidade distinta ao projecto. Relegando os colaboradores habituais – Ilya e Max Martin – para segundo plano, Ariana Grande deixa que o timoneiro dos The Neptunes leve a sua música por caminhos menos óbvios e não tão próximos do modelo normativo e eficaz da canção Pop. Como “The Light Is Coming”, o primeiro esforço conjunto que lhes escutámos, uma frenética amálgama Electro-Pop de batida trémula e espacial, poliritmos, drumpads e sintetizadores agitados, assente numa atípica entrega vocal de Ariana Grande em cadência de quase Rap – a reclamar a luz que as trevas roubaram – e num inusitado sample recuperado ao discurso irado de um civil para com um senador da Pensilvânia (“you wouldn’t let anybody speak and instead”), que ecoa ao longo do tema.

A aliança criativa nem sempre é pacífica, mas é no risco e no factor surpresa que Sweetener revela os seus trunfos. Em “Blazed” – cintilante prosa de Pop/R&B sincopado acerca de um amor assolapado – e “R.E.M.” – não uma homenagem à banda de Michael Stipe, antes alusivo à narração vívida de um sonho idílico com o seu mais-que-tudo – Pharrell entrega a Ariana Grande duas canções que caberiam no catálogo pós-2005 de Mariah Carey. “Successful” dilui-se em produção staccato R&B/Funk e celebra de forma positiva a sua própria prosperidade e êxito, bem como o de outras jovens mulheres bem-aventuradas e sagazes; enquanto que o intrépido tema-título versa sobre alumiar e aligeirar uma situação negativa, dividindo-se entre composição midtempo R&B ao piano e intoxicante construção trap-pop debitadora de versos onomatopaicos como se comandada pelo Bop It.

A única ocasião em que Pharrell lhe concede um senhor banger é em “Borderline”, tempestade sónica de Pop-Funk/Hip Hop que recaptura “Flap Your Wings” ou “Hot in Here” que em tempos idos compôs para Nelly a bordo dos seus Neptunes, e que conta com uma (demasiado) breve e algo decepcionante participação de Missy Elliott. O que se perde em arrojo ganha-se em solidez comprovada pela mão de Ilya e Martin: “God Is a Woman” faz virar cabeças com a sua mensagem de emancipação, espiritualidade e libertação sexual; “Everytime” soa à sequela menos fogosa e mais conturbada de “Everyday”“Better Off” trata-se da triste mas assertiva compreensão de que o fim do relacionamento com Mac Miller lhe trouxe maior serenidade; e o fantabulástico “Breathin’”, incrível na sua produção Electropop, é possivelmente o melhor bop alguma vez feito sobre ataques de ansiedade. É praticamente certo que chegará a single, resta saber se ainda antes do final do ano.

Nos seus derradeiros instantes, Sweetener dá uma segunda vida a “Goodnight n Go” de Imogen Heap, adicionando alguns versos e uma atmosfera Trap, conservando no entanto a etérea tónica Synthpop; dedica juras de amor eterno ao noivo “Pete Davidson”, e convoca Pharrell Williams uma última vez para um relato honesto e confessional do período conturbado que viveu após o atentado de Manchester em “Get Well Soon” – novamente a importância do cultivo do bem-estar físico e mental, na mais importante das canções que Ariana Grande escreveu até hoje. É triste, reconfortante, lunática e esperançosa – um perfeito condensar das emoções e ideias que atravessam o disco.

Cinco anos de imaculada actividade musical permitem a Ariana Grande correr uns quantos riscos sem que isso implique que caia do seu pedestal. Poderemos dizer que o seu pico comercial esteve algures entre o arsenal de hits de My Everything (2014) e sobretudo Dangerous Woman (2016), mas é em Sweetener que está o seu despertar artístico. Isso custar-lhe-à inevitavelmente a alienação de algum do seu público, mas a conquista da massa crítica bem como a validação e identificação da sua obra, serão por esta altura as metas mais importantes do seu percurso. Resta esperar que Ariana Grande continue a crescer no sentido certo, destinada à grandeza que sempre lhe reconhecemos.

 

Ariana Grande – Sweetener (2018)

Editora: Republic Records

Classificação: 8,3/10

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