Conto

A Doce Ameaça

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Noite cerrada na vila de Ardósia. Um temporal há muito assim não vivido por ali. O alerta dado pelos meteorologistas indicava ventos muito fortes, chuva intensa, e o aviso que se fazia ouvir na televisão da sala de Sílvia era bem claro: “aconselhamos os cidadãos a permanecerem em casa até novas indicações”.

Sílvia, uma mulher com 30 primaveras vividas, uma vida profissional de meter inveja a qualquer um, mas a viver o pesadelo da perseguição.

O marido morreu num acidente de carro numa noite como aquela. Adormeceu ao volante, e o embate numa árvore foi fatal. Desde então, Sílvia não conduziu mais, e sempre que um temporal se aproxima fecha-se em casa a sete chaves, enrolada numa manta polar e com o gato Perle por perto.

Já tentou de tudo para vencer o trauma, medicação, acompanhamento psicológico e nada…
Sílvia nunca foi muito de acreditar em espíritos, e forças sobrenaturais, fazia pouco de quem falava sobre isso.

O marido de Sílvia morreu há 5 meses, e desde então o desespero instalou-se…

Rebuçados de mentol, eram os preferidos de Sílvia mas depressa se tornaram os piores inimigos da vida dela…Todos os dias, a caminho do trabalho, encontrava um rebuçado de mentol num local diferente e sempre com uma mensagem.

“Não penses que te escapas”, “isto ainda agora começou”, “não perdes pela demora”… cada dia uma ameaça nas mãos. Naquela noite de Novembro, Sílvia só saiu de casa para ir comprar pão, e eis que… lá estava o rebuçado… “É hoje”!

Ao ler isto, Sílvia deixou-se cair no chão. Percebeu que o número de rebuçados encontrados tinha sido 30, o número correspondente à idade que tem e nesse momento temeu, olhou em volta. Suores frios tomaram conta dela, e foi para casa o mais depressa que pôde, queria fugir.

Quando chegou a casa, abriu a porta e por todo o lado, nas paredes, escrito a sangue “és a seguir…”

Apesar de todos os avisos dos meteorologistas, Sílvia não podia ficar mais tempo entre aquelas quatro paredes. O corpo a tremer, as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto como se tivessem vida própria. Abriu uma mochila, atirou com tudo o que conseguiu lá para dentro e sem pensar duas vezes pegou nas chaves do carro já cobertas do pó.

Abandonou a casa a correr, tentava ligar para o pai, para a mãe, para os amigos, mas era em vão, as comunicações estavam cortadas.

Entrou no carro e gritou! Os bancos estavam cobertos de rebuçados.

Queria sair dali, queria fugir, mas… não conduzia há cinco meses… estaria ela capaz de o voltar a fazer?

O carro abanava tal era a força do vento, nos vidros a chuva caía que nem uma cascata. Sílvia rodou a chave, o carro soluçou mas acabou por pegar.

No rádio, uma mistura de vozes, de ruído e no fundo, uma voz forte que repetia “É hoje”, falava com cada vez mais intensidade, cada vez mais rápido, cada vez mais alto. O pé que Sílvia tinha sobre o acelerador acompanhava o ritmo da voz que ouvia. Cada vez mais nervosa, sem saber para onde se dirigir, sem conseguir entrar em contacto com ninguém. Sempre que agarrava no telemóvel e tentava marcar o número de alguém, a voz do outro lado dizia… “É hoje!”.

Sílvia deixou-se consumir pelos nervos, pelo medo, e atirou com o telemóvel pela janela.

Era incapaz de ver que rumo estava a seguir, mas não conseguia parar…De repente, um clarão surge no caminho. Um camião perdeu o controlo e veio na direção do carro de Sílvia…

Assim que percebeu tentou desviar-se, mas o carro rodopiou, embateu em todo o lado e não escapou ao camião.

Nessa noite, Sílvia perdeu a vida.

Margarida Gaspar

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