Direitos Humanos

Porque existe o Dia Internacional da Mulher?

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Nova Iorque, 8 de Março de 1857. Ou Nova Iorque, 8 de Março de 1908. A data não é consensual mas a razão é a mesma: perto de cento e trinta (130!) mulheres foram trancadas numa fábrica de tecelagem e queimadas vivas pelo simples facto de terem feito greve. Lutavam por melhores condições de trabalho e foram reprimidas com violência.

A partir de 1910[1], este mesmo dia foi declarado como Dia Internacional da Mulher, no seguimento da Revolução Industrial e às portas da Primeira Guerra Mundial.

Não será um dia de flores, bombons, massagens ou jantares românticos. Não se trata de ficar de perna cruzada em casa sem fazer as lides domésticas ou fingir que não se é casada nem se tem filhos.

Se o Dia da Mulher é todos os dias? Deveria ser. Porque não existe o Dia do Homem? Porque eles não precisam, a sociedade está feita deles e para eles. Se é irónico ser feminista e festejar o Dia da Mulher? Não. Significa que a paridade não foi atingida e que a igualdade está tão longe hoje como nas décadas de 1960 e 1970.

Ser o Dia da Mulher quer dizer que morreram 130 mulheres na luta pela igualdade de género. Ser o Dia da Mulher significa que eu hoje posso votar porque as minhas antepassadas não baixaram os braços. É dia 8 de Março, mas poderia ser qualquer outro dia. Diariamente, dezenas, centenas, milhares de mulheres morrem pelo simples facto de serem mulheres, de terem dois cromossomas X, por terem um par de mamas, usarem decotes ou saias reduzidas. Por quererem mais para elas próprias do que o mundo espera.

Ser mulher é, como em tempos escrevi, “nascer com um atestado de estupidez passado por uma sociedade machista e sem respeito pelo sexo oposto”. Ser mulher é ter de provar-se capaz duas vezes mais do que um homem. É saber que vamos receber sempre menos do que o sexo oposto por fazermos o mesmo tipo de trabalho. Nós somos apenas 35% da força de trabalho global porque não nos deixam ser mais[2].

Eu não me sinto menos capaz do que um homem. Posso não levantar 100kg de uma vez, mas levanto 50kg duas vezes. Posso não ser rápida a correr, mas chego ao mesmo destino a andar. Posso até não chegar à última prateleira dos armários da cozinha, mas pego num banco e alcanço o que quiser. Eu faço tudo o que um homem faz. Mas não acredito que todos os homens façam tudo aquilo que eu faço. Eu ou qualquer outra mulher.

Ser mulher é crescer com complexos. E, para mim, isso não tem mal nenhum (há quase 23 anos que os tenho comigo!). É comparar-nos com a vizinha do lado, é achar que aquelas gordurinhas poderiam desaparecer como que por magia. É querer ter filhos mas ficar em forma tão depressa como a Carolina Patrocínio sem ir ao ginásio. É ter o cabelo encaracolado quando ele é liso, ou vice-versa. É querer comer uma feijoada à transmontana mas ficar com uma barriga lisa de quem comeu uma salada.

Só em Portugal, no ano de 2014, as Forças de Segurança registaram 27 317 participações de violência doméstica (25 277 no continente e 2 090 nos arquipélagos). Foram recebidas 2 276 participações por mês, 75 por dia, 3 por hora. 89% das situações de violência doméstica são entre namorados. Segundo a Associação Portuguesa de Apoio à Vitima (APAV), em 2015 morreram 29 mulheres (aconselho vivamente o vídeo “Gostamos de Flores mas Queremos Direitos” da eurodeputada do Bloco de Esquerda Marisa Matias, gravado esta manhã).

Num mundo perfeito, e peço desculpa aos mais sensíveis, seria de esperar que eu pudesse sofrer em paz sempre que tivesse o período. Mas isso não acontece, e eu sei que, pelo menos em dois dias de cada mês, tenho de me arrastar da cama, enfrentar as dores que não desaparecem com medicamentos, e ir trabalhar. Porque o mundo não respeita as minhas necessidades biológicas, a diferença entre ser homem e mulher. Nesses dois dias eu não sou produtiva. Eu sou apenas 1,76m de dores e indisposição.

Seria de esperar que, em pleno século XXI, todas as mulheres pudessem votar (nunca é demais recordar o caso da Arábia Saudita), ou vestirem o que quisessem. Que todas nós tivéssemos direito a ir à escola, a decidir com quem namorar, com quem casar. Que todas nós pudéssemos ganhar tanto ou mais do que um homem. Por somos capazes. Porque não somos estúpidas. Porque nos estereotipam como símbolo sexual. Nós somos mais.

Somos quem dá vida. Quem cuida. Quem ama incondicionalmente. Somos quem se chateia por mau comportamento e más notas. Somos nós que ficamos com estrias depois do parto, que nem sempre voltamos à forma física desejável. Mas se tu hoje tens um filho, agradece à mulher que o teve (de certeza que não foram nove meses fáceis).

Se tu existes é porque tens uma mãe (e um pai!). E se amas a tua mãe, respeita-a. E respeita todas as que são suas iguais. Mesmo aquelas que não se dão ao respeito (sim, eu sei que elas existem). Estamos todas no mesmo barco, temos todas as mesmas inseguranças. Abençoados sejam aqueles que nos dão valor, que nos respeitam. Que foram criados por uma mãe que lhes explicou o que é ser mulher. As bocas de mau gosto. As piadas que geram traumas. As brincadeiras não deveriam ter existido.

Eu dispo-me quando quero, para quem quero e como eu quiser. Eu namoro com quem quiser. Posso até namorar vinte homens antes de casar. Eu faço o que eu quero, porque quero, com quem quero e quando quero. Eu sou mulher. Ninguém é meu dono. E só a minha consciência me pode julgar.

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Ser mulher é tudo isto e muito mais. Sejas tu alta ou baixa, gorda ou magra, loira, ruiva ou morena, tu vais ter sempre um rótulo: és mulher. E, para muita gente, isso é significado de incapacidade.

Quando tu perceberes isto, quando tu amares a mulher em todo o seu ser, a sua essência, quando tu exigires delas o mesmo que de um homem, quanto tu valorizares o seu trabalho e o seu esforço de igual forma, quando vires mais além de um par de mamas ou de rabo de saias, quando começares a pensar com a cabeça de cima e ignorares a de baixo, quando pensares duas vezes antes de dizeres um piropo, quando te lembrares que o que tu fizeres, outro homem vai fazê-lo à tua filha, quando perceberes tudo isto e muito mais, então tu vais ser um Homem. E aí, só aí, poderá deixar de haver o Dia Internacional da Mulher. Ou então não. Porque o ser humano tem tendência para se esquecer das suas lutas e das suas conquistas, e no dia em que o 8 de Março deixar de ter significado, então os direitos serão tidos como garantidos (verdade seja dita, toda a gente sabe o que acontece às coisas que são dadas como garantidas, certo? “Quando a gente ama, é claro que a gente cuida”).

Que se lixe o que os outros pensam! Que se lixem as sociedades machistas, os assédios e as políticas pouco feministas. O mundo tem medo de mulheres com garra, feitas de fibra! E no dia em que as mulheres se juntarem, se apoiarem e cooperarem, meus amigos… O mundo será nosso!

E como disse a Marisa, “gostamos de flores mas queremos direitos”!
Feliz Dia das Mulheres!

[1] Vielen Dank a Clara Zetkin, socialista alemã que levou a proposta à Internacional Socialista que decorreu em Copenhaga.

[2] A 24 de Outubro de 1975, as mulheres da Islândia fizeram uma greve pela igualdade de direitos. 90% das mulheres não trabalharam nem trataram das casa. O país ficou sem mão-de-obra e os homens não conseguiam suportar todas as tarefas. No ano seguinte, o Parlamento islandês aprovou a lei que garantia a igualdade salarial. Cinco anos depois, a Islândia tornou-se no primeiro país do mundo com uma Presidente mulher. Hoje em dia, tem a maior taxa de igualdade de género no mundo. Well done, Iceland!

 

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